Qual foi a inflação dos últimos 2 anos?

Qual foi a inflação dos últimos 2 anos?
Foto: Arquivo Expansão

Em Outubro de 2019, o Executivo introduziu o IVA e, simultaneamente, deixou desvalorizar fortemente o Kwanza para introduzir a taxa de câmbio flexível. Como resultado, os preços da generalidade dos produtos subiram fortemente, como todos estamos tristemente recordados. Estranhamente, o INE apresenta, exactamente em Outubro de 2019, o nível de inflação mais baixo do último ano! Como pode o cidadão acreditar nestes números?

O cálculo da inflação depende, no essencial, dos ponderadores e dos preços.

Os ponderadores

Ponderador significa apenas o peso de cada produto no conjunto de gastos médios do cidadão: o aumento de cada produto é ponderado para se obter o valor do aumento geral de preços, ou seja, a inflação. Se eu gastar 90% do meu orçamento em mandioca e 10% em táxis, e a mandioca aumentar 10% e os táxis 20%, o valor global do aumento dos meus gastos de consumo será de 10% x 90% + 20% x 10% = 9% + 2% = 11%. Isto quer dizer que o aumento da mandioca, embora menor, pesou muito no aumento geral e, ao contrário, o aumento dos táxis, embora maior, pesou muito pouco. Ora, nós alteramos constantemente o nosso consumo. Por exemplo, podemos passar a comer mandioca (70%) e pão (30%), exigindo que se recalculem os ponderadores e, neste caso, que um outro produto (pão) seja introduzido no cabaz de cálculo da inflação. Embora simples de perceber, os ponderadores são, no consumo geral da população, difíceis de calcular. Por isso as actualizações fazem-se periodicamente. De acordo com o INE, "Esta actualização deve ser feita, normalmente, de 5 em 5 anos (no máximo) conforme orienta o "Consumer Price Index Manual - Concepts and Methods", actualizado em 2020".

Ora, os dados do "Inquérito sobre Despesas e Receitas (IDR), realizado de Março 2018 a Fevereiro 2019" continuam a não estar disponíveis para utilização, resultando os actuais ponderadores do "Inquérito Integrado sobre o Bem-estar da População (IBEP) realizado pelo INE, no período de Maio 2008 a Junho 2009"(1): têm, portanto, 11 anos e estão desactualizados.

É importante alterar os ponderadores, mas as variações do consumo não determinam erros de ordem 2, ou seja, valores de inflação 2 vezes superiores, muito menos de 3 ou 4, como parece ter acontecido: os erros resultantes da não actualização dos ponderadores são da ordem das décimas, no máximo de um ponto percentual. Mais ainda, ponderadores desactualizados originam erros permanentes e crescentes, não a incapacidade de reflectir o que se passou num período muito particular, entre Outubro e Dezembro de 2019, com especial incidência no mês de Outubro, passando, depois, milagrosamente, a reflectir novamente a marcha geral dos preços (sempre de forma aproximada, evidentemente). Além disso, ponderadores desactualizados originam mais erros quando há variações relativas de preços, isto é quando os táxis sobem muito mais do que a mandioca, no nosso exemplo, não quando há um aumento generalizado de preços: se todos os aumentos fossem absolutamente iguais o efeito dos ponderadores seria nulo. Ora, embora determinados preços, como os táxis e a água não tenham subido em 2019, e outros, como o ensino e a electricidade tenham variado de forma diferente, a generalidade dos produtos apresenta variações semelhantes.

Por tudo isso, um erro nos ponderadores não poderia determinar que o mês de Outubro fosse o mês com a inflação mensal mais baixa, exactamente quando todos os preços subiram dramaticamente, passando, depois, por obra e graça, a funcionar normalmente. A utilização de ponderadores desactualizados pode deturpar um pouco o valor da inflação, mas não explica nada do que se passou no final de 2019!

O registo dos preços

O INE apresenta, nas suas publicações sobre a inflação, os preços de alguns produtos compilados na província de Luanda (portanto um pouco diferentes dos preços nacionais). Antes de tudo, é muito duvidoso que os produtos seleccionados possam alguma vez ter correspondido a uma amostra representativa do cabaz da inflação, mas aceitemos o critério do INE. A questão não é essa. Os preços que aí aparecem são absolutamente chocantes.

Observem-se os preços constantes da tabela "Preços médios de alguns produtos seleccionados" na página 14 da "Folha de Informação Rápida n.o 08_IPC Nacional Agosto 2020" do INE: O kg de farinha de trigo está a 1.064 Kwanzas? O Kg ou um monte médio de carne de vaca de primeira a quase 12 mil Kwanzas? O Kg de fuba de milho a 1.000 Kwanzas (vendido à lata de 900gr (!?))? Miudezas de vaca a 6.000 o monte médio? Coxa de frango a 2.400 cada unidade (!?)? Óleo de soja a 1700 por litro? Cebola a 2.000 o monte de 5-6 unidades? Tomate a 3.000 o monte de 5-6 unidades? Farinha de bombom a 827 por Kg? Cerveja nacional a 375 (garrafa de 310 ml (!?))?

Onde foi o INE buscar estes preços para a média das lojas, praças e supermercados de Luanda? Eu compro em praças e cadeias de supermercados situadas nas proximidades do bairro Nova Vida, cujos preços, seguramente, se encontram acima da média de Luanda, e os valores do INE estavam, em Agosto deste ano, em média, 116% mais caros do que os preços a que eu compro! Feita a comparação entre os preços do INE e os preços nos meus locais de abastecimento habitual, para 56% dos produtos daquela tabela, eliminando as diferenças mais elevada e mais baixa, o resultado foi o seguinte:

Embora não se trate de uma análise rigorosa, podemos compreender que: 1) os preços do INE são absurdamente mais elevados do que os preços efectivos; 2) que essa diferença se reduziu muito substancialmente em 2019 (de 3,6 vezes para 2,6 vezes - cerca de 100%) e substancialmente nos 8 meses de 2020 (de 2,56 para 2,16 vezes - 60% anualizados).

* Investigador do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Lusíada de Angola

(Leia o artigo integral na edição 593 do Expansão, de sexta-feira, dia 25 de Setembro de 2020, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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