Discurso à Nação

Discurso à Nação

Um discurso demasiado longo, muito exaustivo, com mais números que palavras, um grupo parlamentar a interromper despropositadamente a conclusão das ideias, acabaram por condicionar os resultados que eram esperados com esta intervenção do Presidente da República.

Comecemos pelo princípio. Hoje está assumido pelos estudiosos da comunicação que um discurso não deve ultrapassar os 40 minutos, só em condições muito especiais, pois a partir desse período as pessoas deixam de ouvir e perdem a capacidade de reter a mensagem.

João Lourenço falou duas horas. E não estava a falar para os deputados, esses receberam o discurso fotocopiado, mas para os angolanos, que através da rádio e da televisão estavam a acompanhar. Ou pelo menos era assim que a comunicação da Presidência deveria pensar.

E, nesse aspecto, um discurso longo feito ao final da manhã, a entrar no horário do almoço dos angolanos, não seria recomendado. Muito poucos, tirando aqueles que por obrigações profissionais tinham de o fazer, terão ouvido a totalidade da intervenção. Só por curiosidade, o discurso do Presidente, impresso em corpo 12, ocupa 26 páginas.

A questão do detalhe dos números também merece um reparo. Obviamente que todos estavam à espera que fossem apresentados valores do estado da economia, que reflectissem o trabalho do governo nestes dois anos. Por isso a primeira parte, onde João Lourenço dá os números macro económicos, que poderiam ser complementados com valores sectoriais, parece de bom senso.

Mas chegar ao pormenor das toneladas de raízes e tubérculos, os litros de iogurte, os pontos de internet, o número das parteiras tradicionais ou os quadros que foram comprados para escolas, parece-me um exagero.

Esse é um trabalho para os ministros, devem ser eles a divulgar estes dados e não o Presidente. Até porque quantos mais e mais pormenorizados forem os números apresentados, maior a possibilidade de haver erro, até porque alguns dados são voláteis e mudam quase diariamente.

E basta detectar apenas uma falha para logo se pôr a credibilidade de todo o discurso. Por isso tem de haver um grande equilíbrio, e porque não dizê-lo, uma dose de bom senso, para entregar ao Presidente números para ele divulgar. E, neste aspecto, parece-me que não foi conseguido.

As palmas despropositadas do seu grupo parlamentar, entoadas de forma efusiva a meio das ideias que João Lourenço estava a explicar, também não credibilizam a mensagem. Depois a postura de alguns, afundados nas cadeiras, em estado de sonolência, muitos de olhos fechados, também não passa uma boa imagem.

E quando João Lourenço chegou à parte da mobilização, de dizer aos angolanos que apesar dos tempos difíceis as coisas vão melhorar, que as mudanças eram obrigatórias e que as suas consequências vão demorar algum tempo a sentir-se na vida dos cidadãos, na parte da mobilização que é necessário fazer nesta altura, muitos já não estavam a ouvir.

E os outros estavam cansados, e poucos se lembram dos dois últimos parágrafos do discurso, onde estava a mensagem de esperança que muitos queriam ouvir. Uma diferença enorme do discurso nas Nações Unidas, onde, em apenas 17 minutos, o Presidente disse muito mais. Uma oportunidade desperdiçada.

Editorial da edição 546 do Expansão, de sexta-feira, dia 18 de Outubro de 2019, já disponível em papel ou em versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui.

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