Moral em baixa

Moral em baixa

Era inevitável que, passados dois meses, houvesse uma abertura da actividade económica do País. Ferida pela queda do preço do barril de petróleo, a economia angolana tem agora de se "agarrar" à produção nacional para sobreviver, um desafio que justifica as medidas que entraram em vigor na terça-feira.

Mas, ainda assim, fica um rasto de empresas que, possivelmente, não voltarão a funcionar, um número de desempregados que volta a aumentar e uma série de sonhos que se esfumaram entre as carências das pessoas mais pobres e os excessos dos mais ricos. A moral baixou, indiscutivelmente, e nós vamos precisar de uma população motivada para podermos dar a volta a esta situação.

Se as pessoas forem baixando os braços, optarem por ficar paradas à espera da passagem do comboio das cestas básicas, que, diga-se, na maioria dos casos, são distribuídas mais de acordo com ego de quem dá, do pela dignidade de quem recebe, então teremos muita dificuldade em caminhar com o passo apressado que a situação exige.

Também não ajuda para a confiança dos cidadãos todas estas mudanças de "chefes", numa altura em que era necessário passar uma mensagem de união, de solidez, de credibilidade. Nestes dois meses de estado de emergência, trocaram-se ministros, governadores e responsáveis das principais empresas públicas.

Sem explicações, como sempre acontece. Só que, nesta altura, particularmente sensível, era necessário falar para as pessoas. Envolvê-las mais neste desafio e isto, por muito que custe admitir, não se resolve com encontros por convite com a sociedade civil. Há, efectivamente, uma nuvem de desilusão a cair sobre as mudanças de paradigma que tanto se anunciaram nos últimos dois anos. E isso cria desorientação nas certezas que muitos achavam ter.

Metade dos angolanos esteve em casa a olhar para estes tempos. Por isso, muito mais atentos aos pormenores, às posturas, aos erros, às contradições. A outra metade esteve a trabalhar de forma mais acelerada e, por isso, estão mais cansados, com menos paciência, com menos capacidade de encaixe. Os próximos dias, com a implementação das medidas que apontam para uma certa normalidade, serão muito importantes nesta recuperação da moral das pessoas.

O impacto ainda reduzido da Covid-19 no País tem ajudado a manter uma certa crença, o bom trabalho comunicacional da ministra, calma e tranquila, tem sido o maior aglutinador da boa moral que ainda resta às populações. E fez esquecer o material que alguns meteram "à sorrapa" no avião da Etiophian Airlines, a lembrar tempos que julgavam ultrapassados. Mas, pior do que isso, voltou a não haver explicações.

Isto de pensar que não se deve falar com os cidadãos sobre determinados assuntos, porque acham que não merecem ou que não entendem, traz a médio prazo custos que podem ser muito elevados. Mas isso será depois deste vírus ter sido dominado e da crise ter aliviado. Os angolanos têm memória....

(Editorial da edição 576 do Expansão, de sexta-feira, dia 29 de Maio de 2020, já disponível em papel ou em versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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