Celebrar é uma forma de liderar, mas será que o estás a fazer?
Quando a organização reconhece sempre os mesmos perfis, reforça uma ideia limitada de mérito (...) Quando valoriza exclusivamente o desempenho individual, enfraquece a mensagem de cooperação que tantas vezes afirma defender. Ao líder cabe a responsabilidade de compreender quem contribuiu e reconhecer.
Aprender a celebrar pode ser desafiante para alguns, desfrutar daquela conquista, daquele momento de vitória e de diferenciação. Reconhecer uma conquista é uma decisão de liderança: revela o que valorizamos, a quem damos visibilidade e a cultura que estamos a construir.
Mas até que ponto é que realmente o estás a fazer?
Vivemos numa sociedade que nos desafia permanentemente a fazer mais, superar metas e conquistar novos espaços, já todos sabemos disso. Então, o que podemos fazer de forma diferente? Nas organizações, avaliamos o sucesso através da execução, dos indicadores de desempenho e dos resultados alcançados, quantas vezes já viveste esta situação? Por isso, entre a pressão para entregar e a urgência de continuar, estás a permitir-te celebrar?
A verdade é que durante a minha carreira profissional, de quase três décadas em Capital Humano, tenho observado organizações que planeiam, executam e avaliam com rigor, mas dedicam pouca atenção ao reconhecimento do caminho percorrido. Ou seja, o projecto é concluído com sucesso, alcança-se uma meta e logo a seguir instala-se imediatamente a exigência seguinte...
O que é necessário fazer a seguir, sem sequer dar tempo para desfrutar esse momento de conquista. O resultado entra no relatório, o esforço que o tornou possível fica, muitas vezes, por reconhecer. Eu sei, na primeira pessoa o que isso é, confesso que nem sempre soube celebrar.
Durante muitos anos, perante uma conquista, a minha primeira preocupação era o passo seguinte. Alcançávamos um objectivo e rapidamente surgia a pergunta: e agora, o que vamos fazer a seguir? É verdade que esta orientação para a acção me ajudou a construir e a fazer o caminho que fiz até agora, mas também me retirou, por vezes, a possibilidade de reconhecer plenamente aquilo que já estava construído, de desfrutar aquele momento, com a intensidade necessária e desejada.
Com os anos, valorizam-se outros aspectos, diria? Mas compreendo, que nada tem a ver com idade, mas sim com posicionamento. É certo que hoje compreendo melhor o valor dessa pausa, pois parar permite perceber o que funcionou, agradecer a quem contribuiu e escolher com maior consciência o próximo desafio e neste caminho a ambição ganha profundidade quando sabemos reconhecer o percurso que a sustenta.
Recentemente, a Liderança Feminina em Angola conquistou o primeiro lugar nos ASEB Awards 2026, numa categoria dedicada à diversidade, equidade e inclusão no ecossistema africano, este reconhecimento representa anos de trabalho, desafios e construção colectiva. Traz também novas responsabilidades. Mas senti que, antes de transformar a distinção numa nova lista de compromissos, era necessário e fundamental dar espaço à conquista, reconhecer quem caminhou connosco: equipa, colegas, organizações, à família, e a ti que nos acompanhas.
Agradecer a confiança e, acima de tudo, viver e celebrar este momento. Na realidade, uma missão pode ser tão exigente que acabamos por adiar indefinidamente a satisfação de a ver avançar, até que seja tarde demais. Por isso, a liderança permanentemente projectada no futuro corre o risco de perder a ligação ao sentido do que já realiza, ao presente, ao momento actual.
Reparem, se uma organização distingue apenas quem apresenta o resultado, pode deixar na sombra quem o tornou possível, e são tantas vezes em que por razões variadas é isso que acontece. Quando reconhece sempre os mesmos perfis, reforça uma ideia limitada de mérito, quem mais contribui efectivamnte para o sucesso daquele resultado? Quando valoriza exclusivamente o desempenho individual, enfraquece a mensagem de cooperação que tantas vezes afirma defender.
Ao líder cabe a responsabilidade de compreender quem contribuiu e reconhecer, não só no privado, mas publicamente. Por vezes, esse acto de reconhecimento é apenas o que faltava para elevar ainda mais a motivação de um colaborador. Quem não gosta de se sentir reconhecido e pertencente a algo de sucesso e para o qual contribuiu efectivamente?
Por isso, reconhecer exige atenção e critérios, pelo que importa identificar contributos concretos, compreender o seu impacto e dar- -lhes visibilidade de forma justa. Esta questão tem particular relevância na liderança feminina, há contributos de mulheres que se tornam tão esperados que deixam de ser reconhecidos (já viveste ou sentiste isso?): desenvolver pessoas, criar pontes, gerir tensões, assegurar continuidade. Este trabalho que sustenta equipas e decisões, mas que nem sempre recebe o mesmo destaque que um resultado comercial ou financeiro.
Se estas competências são essenciais ao desempenho organizacional, devem ter lugar na forma como avaliamos e reconhecemos a liderança, para que celebração ganhe uma dimensão estratégica: torna visível aquilo que a organização considera valioso e influenciar os comportamentos que as pessoas procurarão repetir.
Há ainda uma dimensão mais pessoal
Na relação com mulheres líderes, encontro frequentemente uma dificuldade em reconhecer o próprio mérito, seja fruto da sua educação ou simplesmente porque nunca foi valorizada no trabalho que faz. A conquista é atribuída à "sorte", à ajuda recebida ou ao simples cumprimento de uma obrigação. E, assim, o reconhecimento dos outros é acolhido com reservas. Reservas que limitam, que retiram o valor efectivo da celebração, da conquista! É como se não houvesse espaço nem reconhecesse que tem valor.
E assim, a satisfação dura pouco, porque surge rapidamente a necessidade de voltar a demonstrar competência, de mostrar aos outros que não foi "sorte"! Líder feminina que me estás a ler, desfruta dessa conquista, desse momento, celebra-te e celebra com os outros! Porque, vejo e como referi vivi demasiadas vezes esse sentimento, de que não haveria tempo de celebrar. Quantas mulheres alcançam resultados relevantes e continuam a sentir que ainda não fizeram o suficiente?
Reconheço que esta exigência não nasce apenas de dentro, pode ser alimentada por contextos em que a autoridade feminina é mais questionada e a afirmação do mérito é recebida com desconforto. Algumas mulheres aprendem, por isso, a diminuir a própria presença, mesmo quando o seu trabalho justifica reconhecimento. Quando sentires isto, celebra apenas, vive o momento, terás tempo para continuares a demonstrar a tua competência.
Aprende a parar e a desfrutar! Aprender a celebrar implica também rever esta relação com a visibilidade, implica reconhecer o próprio contributo, partilhar uma conquista e assumir a autoria de uma decisão são formas de ocupar, com responsabilidade, o espaço que se construiu. E é tão simples, porque não o fazer mais vezes? Uma mulher que dá voz ao seu percurso pode ajudar outras a reconhecer possibilidades para o seu e isso é extraordinário! Sobretudo quando partilha também o trabalho, as dificuldades e os apoios que estiveram por detrás do resultado.
No Método INSPIRA, há dois eixos, que fazem sentido reforçar ainda mais neste artigo: CUIDAR: o cuidado começa por ti e o CONQUISTAR: que legado queres deixar, estes eixos, estão plenamente alinhados com este tema de aprender a celebrar, pois a conquista faz parte de um percurso que exige cuidado, crescimento e consolidação.
Celebrar estabelece uma ligação importante entre estas dimensões, já que considero que permite reconhecer o esforço, integrar aprendizagens e perceber o que precisa de ser fortalecido antes de avançar.
É também uma oportunidade para avaliar o custo dos resultados: como chegámos até aqui? O que exigimos de nós e das nossas equipas? Que condições precisamos de criar para continuar? Estas perguntas tornam a celebração mais consciente e a ambição mais sustentável, concordas? Mesmo que nem sempre consigas fazer esta análise sozinho/a, conversar com alguém que nos desafia com respeito, uma mentora, um par ou uma pessoa de confiança, pode ajudar-nos a reconhecer progressos que desvalorizamos e padrões de exigência que já deixaram de nos servir.
A maturidade da liderança também se revela na capacidade de aceitar diferentes olhares
Se do lado pessoal é importante este reposicionar, no lado das organizações, celebrar com intenção exige mais do que organizar um evento ou divulgar uma distinção. Exige nomear os contributos, explicar por que foram relevantes e criar espaço para que as pessoas reconheçam o que construíram em conjunto, bem sei que nem sempre as organizações têm a maturidade para compreender o real impacto da celebração. Mas nunca é tarde para se começar. Na liderança individual, exige-se disponibilidade para acolher uma conquista sem a transformar imediatamente numa dívida para com o futuro.
A verdade é que continuaremos a ter metas, responsabilidades e desafios. Mas a forma como atravessamos cada etapa, cada conquista influencia a energia, a confiança e o sentido com que enfrentamos o que vem a seguir. Celebrar também é liderar! Porque aquilo que reconhecemos ganha lugar na nossa cultura, na nossa memória e na forma como aprendemos a valorizar-nos.
Saber celebrar, começa por nós, para que possamos envolver os outros e dar ainda mais valor àquilo que é celebrado. É, pois, um acto de liderança obrigatório e necessário, para que se continue a actuar com sucesso nos resultados, com todas as aprendizagens necessárias ao longo do processo.
Celebrar é dar significado ao que foi alcançado, já que por detrás de uma conquista existem decisões, preparação, investimento e persistência. Existem dúvidas enfrentadas, erros transformados em aprendizagem e pessoas que sustentaram o trabalho, incluindo aquelas cujo contributo raramente chega ao palco. E é exactamente por isso que a celebração se torna ainda mais gratificante! Por isso, já sabes: celebra!
*EVA ROSA SANTOS, Especialista em Recursos Humanos
Na edição 900, de 30 de Outubro de 2026











