Apoio a Cuba
Podemos apoiar posições internacionais que reduzam o isolamento e facilitem o acesso a alimentos, medicamentos, energia e investimento. Podemos usar a influência que temos, mesmo que pequena. E podemos dizer aos nossos parceiros americanos e europeus, olhos nos olhos, que esta é uma matéria em que Angola tem memória própria.
Pode discutir-se Fidel Castro, o comunismo, o regime cubano, a ausência de democracia, os presos políticos, a liberdade de expressão e tudo o mais que quisermos discutir. E devemos discutir. O que não podemos é reescrever a História de Angola conforme a conveniência diplomática do momento. Porque quando Angola precisou, Cuba esteve cá.
Não veio quando o País estava estabilizado, com petróleo a correr, hotéis cheios e conferências internacionais. Veio em 1975, quando a independência ainda mal tinha aprendido a andar e já havia quem estivesse disposto a decidir por nós quanto tempo ela iria durar. Vieram soldados cubanos. Vieram médicos. Professores. Técnicos. Muitos regressaram a casa, outros ficaram ou estão enterrados no nosso território. E centenas de quadros angolanos foram formados em Cuba nos tempos em que poucos países nos abriam as portas. Agora Cuba atravessa enormes dificuldades.
E Angola e os angolanos não podem comportar-se como aquele amigo que deixa de atender o telefone. Naturalmente, há um pequeno problema chamado Estados Unidos da América. É uma grande potência, é importante para Angola, tem empresas na nossa economia, relações diplomáticas que queremos aprofundar e capacidade para abrir - ou fechar - muitas portas. Convém darmo-nos bem com Washington. Mas uma coisa é diplomacia. Outra é amnésia.
Se a política externa angolana, ou mesmo o sentimento dos cidadãos, tiver chegado ao ponto em que precisamos de pedir licença para defender um velho amigo, então talvez tenhamos conquistado a independência territorial sem conseguirmos preservar totalmente a independência diplomática.
Angola deve ser activa na defesa de Cuba. Não aos gritos, não através de esterismos revolucionários saídos dos anos 70, nem repetindo discursos que já cheiram a arquivo. Deve fazê-lo diplomaticamente, com inteligência, defendendo soluções que permitam aliviar o sofrimento dos cubanos e utilizando a sua relação com Washington para explicar precisamente aquilo que os americanos conhecem muito bem, os países têm interesses, mas também têm História. E a nossa História tem Cuba escrita em letras grandes.
Não significa defender tudo o que o Governo cubano faz. Gratidão não é submissão ideológica. Podemos agradecer aos cubanos que estiveram connosco sem transformar o regime de Havana num modelo político. Podemos defender Cuba sem defender os seus erros. Podemos ser amigos dos Estados Unidos sem aceitar que essa amizade exija escolher os nossos outros amigos.
É precisamente para isso que serve uma política externa adulta. Podemos apoiar posições internacionais que reduzam o isolamento e facilitem o acesso a alimentos, medicamentos, energia e investimento. Podemos usar a influência que temos, mesmo que pequena. E podemos dizer aos nossos parceiros americanos e europeus, olhos nos olhos, que esta é uma matéria em que Angola tem memória própria.
Se isso provocar algum embaraço em Washington, paciência. A amizade que só existe enquanto não incomoda terceiros tem outro nome. Chama-se conveniência. E há uma dívida que não aparece nas contas públicas, não paga juros, não entra no OGE e não pode ser reestruturada pelo FMI. É a dívida da memória. E os países sérios pagam-na!












