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Angola

Angola tem um pastor para cada 258 habitantes e um médico para cada 10.000

PASTORES VÃO TER ‘CARTEIRA PROFISSIONAL’ DE 17 MIL KZ/ANO

Há uma abundância na "cura" pela fé no País, onde proliferam mais de 163 mil lugares de culto, entre igrejas e seitas que se transformaram em negócios de milhões. O Governo promete apertar cada vez mais o cerco e vai cobrar anualmente 17 mil Kz a cada um dos mais de 150 mil lideres religiosos identificados.

A "cura" pela "fé" tem mais capacidade humana que o efectivo médico no País. Para cada 258 angolanos existe, em média, um ministro de culto (pastor, padre ou outro líder religioso capaz de dirigir cultos), enquanto por cada médico há cerca de 10 mil habitantes, muito abaixo do rácio recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que aponta um médico para cada mil habitantes, calculou a Expansão com base em dados do Instituto Nacional dos Assuntos Religiosos (INAR) e do Anuário Estatístico da Saúde de 2023, o último publicado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Embora não exista um rácio internacional de pastores por habitante, os dados assustam quando comparados lado a lado. Os dados concretos recolhidos junto das igrejas pelo INAR, em 2025, revelam que há no País mais de 150 mil ministros de culto identificados. Por outro lado, o anuário estatístico do INE refere que o País tem apenas 7.395 médicos. São duas realidades paralelas, mas que dizem muito sobre as dificuldades sociais das famílias e sobre o défice da capacidade sanitária nacional.

Actualmente, para formar um médico são necessários 5 a 6 anos, laboratórios, investigação e professores qualificados. Já um ministro de culto não precisa de tanto: basta "parecer" ter fé e uma unção divina para atrair milhares de crentes. Mas essa realidade está prestes a mudar. A proposta de alteração à Lei n.º 12/19, de 14 de Maio, sobre a Liberdade de Religião e de Culto, aprovada este mês na generalidade na Assembleia Nacional, prevê que os ministros deverão provar junto do INAR a formação superior em Teologia, "devidamente homologada pela entidade de certificação de estudos em Angola, para efeito de registo, credenciamento e autorização do exercício de actividade religiosa no território nacional", diz o número 2 do artigo 31 da proposta.

O número de líderes religiosos cresce fortemente todos os anos devido às "fragilidades da lei vigente, que dá abertura a que muitos entrem na profissão sem o mínimo de conhecimento teológico", explica Osvaldo Mendes, director interino do INAR, ao Expansão. Daí que a reforma vise travar o crescimento do "negócio da fé" promovido por pastores sem preparação, um fenómeno que também está muito ligado às condições sociais e económicas do País. Para o sociólogo Moniz Bala Pedro, o problema é conjuntural. Além da fraca fiscalização da proliferação de igrejas, "a fraca escolaridade, associada à fragilidade financeira das famílias, torna-as em presas fáceis", caindo nas armadilhas da fé sem questionamento.

"O fenómeno do crescimento das igrejas já é preocupante, e cresce ao olhar impávido das autoridades. Depois, não se sabe qual é o papel social destas igrejas, que estão em qualquer esquina do País, nem que valores inculcam nas populações. Este crescimento desmedido pode configurar-se rapidamente numa ameaça à segurança do Estado", disse o especialista.

Moniz Pedro referiu que muitas destas igrejas surgem com o fim de angariar fundos para sustentar os caprichos de um grupo muito restrito de pessoas, nomeadamente os líderes que pregam o milagre da prosperidade e da vida em abundância material. "A nova lei tem que ser discutida friamente pela sociedade, mas não basta criação de leis e regulamentos para travar a proliferação de seitas, deve haver fiscalização rigorosa e aplicação efectiva da lei, porque temos várias leis no País, mas muitas são apenas letra morta", refere o investigador.

Pastores vão ter "carteira"

O INAR está a preparar a implementação do registo dos ministros de culto, previsto no regulamento da Lei da Liberdade de Religião e de Culto, com uma taxa unitária anual de 17.000 Kz, numa espécie de "carteira profissional", nos termos do Decreto Presidencial n.º 18/20, de 20 de Janeiro, que aprova as taxas a cobrar pelos serviços do...

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