Agronegócio com consciência |A saúde antes do lucro
Talvez esteja na hora de repensarmos a nossa ambição de "grande escala". Grande não deveria significar apenas muitos hectares. Grande deveria significar produtividade, qualidade, conhecimento, emprego, respeito pelo solo e pela água, integração dos pequenos produtores e capacidade de colocar alimentos seguros no mercado.
Quando falamos de agricultura em Angola, a conversa rapidamente cresce em hectares, máquinas, investimentos, grandes fazendas e números de produção. Falamos em exportação, substituição de importações e em transformar o país numa potência agrícola. Tudo isso é importante. Mas talvez estejamos a começar a conversa pelo fim. Antes de perguntarmos quanto podemos produzir, deveríamos perguntar: para quem estamos a produzir, o que estamos a colocar na mesa das famílias e que relação queremos construir com a terra?
m a terra? Tenho reflectido sobre a forma como nos fomos afastando da terra. Para muitos, a agricultura tornou-se apenas um negócio; para outros, continua a ser uma actividade de sobrevivência. Entre estes dois extremos encontramos grandes extensões de terra nas mãos de pessoas com capacidade financeira, mas que pouco produzem e pouco impacto positivo deixam nas comunidades à sua volta. Ter terra não é o mesmo que desenvolver agricultura. E possuir milhares de hectares não transforma automaticamente alguém num empresário agrícola.
A terra tem uma função económica, social e humana. É dela que nasce aquilo que nos alimenta e dela dependem o rendimento das comunidades rurais, o emprego dos jovens e a capacidade de Angola reduzir a dependência alimentar do exterior. Quando uma grande propriedade permanece improdutiva durante anos, não perde apenas o proprietário. Perde a comunidade e perde o país. Talvez esteja na hora de repensarmos a nossa ambição de "grande escala". Grande não deveria significar apenas muitos hectares. Grande deveria significar produtividade, qualidade, conhecimento, emprego, respeito pelo solo e pela água, integração dos pequenos produtores e capacidade de colocar alimentos seguros no mercado.
É aqui que entra uma questão essencial: o agronegócio pode ter lucro sem perder a consciência? Acredito que sim. A empresa agrícola precisa de ser rentável, porque sem rentabilidade não há continuidade. Mas o lucro não pode ser o único critério. Quem produz ou comercializa alimentos trabalha com algo mais íntimo do que uma mercadoria: trabalha com aquilo que entrará no organismo de outra pessoa. Somos, em grande medida, resultado daquilo que comemos, dos hábitos que construímos e do ambiente em que vivemos. A Organização Mundial da Saúde identifica a alimentação não saudável como um dos importantes factores de risco das doenças não transmissíveis e sublinha os benefícios de uma alimentação rica em fruta, hortícolas, leguminosas, cereais integrais e frutos secos. Portanto, quando falamos de agricultura estamos também a falar de saúde pública.
Durante muito tempo, as comunidades cultivaram recorrendo sobretudo aos ciclos naturais, à matéria orgânica e ao conhecimento transmitido entre gerações. Não devemos, porém, romantizar o passado nem afirmar que todo fertilizante ou produto fitossanitário moderno é necessariamente prejudicial. A ciência não sustenta uma equação simples entre "agricultura química" e cancro.
abemos, sim, que determinados pesticidas podem representar riscos para a saúde dependendo da substância, da dose e do nível de exposição. É precisamente por isso que a OMS, a FAO e o Codex Alimentarius trabalham com avaliações de risco, boas práticas agrícolas e limites máximos de resíduos nos alimentos. O verdadeiro problema surge quando estes produtos são usados sem conhecimento técnico, sem controlo, sem respeito pelos períodos de segurança, sem rastreabilidade ou sem capacidade laboratorial para sabermos o que realmente chega ao consumidor. Por isso, diante de um tomate, uma batata, uma couve, uma manga ou um abacate, não deveríamos perguntar apenas: "quanto rende por hectare?" Deveríamos perguntar também: que solo deixaremos depois da colheita? Que água utilizámos? Que substâncias foram aplicadas? Quem as aplicou e com que formação? Podemos rastrear a origem deste alimento? E, talvez a pergunta mais simples de todas: teríamos tranquilidade em servi-lo aos nossos próprios filhos?
Para mim, esta última pergunta vale mais do que muitas folhas de Excel. Esta mudança de mentalidade é igualmente necessária se Angola pretende transformar a agricultura num verdadeiro sector exportador. O mercado internacional não compra apenas porque o produto é bonito ou porque temos terras férteis.
A Organização Mundial do Comércio deixa claro que os exportadores precisam de cumprir requisitos de segurança alimentar, saúde animal e sanidade vegetal para conquistar e manter o acesso aos mercados agroalimentares. Na União Europeia, por exemplo, existem exigências relacionadas com controlos, condições fitossanitárias e limites máximos de resíduos de pesticidas, e estes limites aplicam-se também aos alimentos importados de países terceiros.
Ou seja: a certificação não é um detalhe burocrático colocado no fim da cadeia. A certificação começa no campo. Começa na semente. Na água. Na utilização correcta dos produtos agrícolas. No registo das aplicações. Na higiene. Na colheita. No acondicionamento. No transporte. Na cadeia de frio. Na rastreabilidade. E na possibilidade de demonstrarmos, através de processos e análises, que aquilo que produzimos respeita determinados padrões.
odemos produzir uma fruta extraordinariamente bonita e, ainda assim, não estarmos preparados para colocá-la num mercado internacional exigente. Este é um dos grandes saltos que Angola precisa de dar: ajudar o camponês a tornar-se agricultor e ajudar o agricultor a tornar-se empresário agrícola. E não digo isto para diminuir a figura do camponês. Muito pelo contrário.
O pequeno produtor possui conhecimentos sobre a terra, as estações, as culturas e o território que muitas vezes não encontramos nos gabinetes. O que lhe falta, frequentemente, é assistência técnica, financiamento adequado, equipamentos, organização, conservação, informação de mercado, capacidade de certificação e canais de comercialização. Em Angola, o Banco Mundial reportou que o projecto MOSAP2 apoiou cerca de 179 mil pequenos agricultores e suas famílias entre 2016 e 2022, procurando melhorar a segurança alimentar, aumentar a produtividade e ampliar a proporção da produção comercializada. Cerca de 49% dos beneficiários eram mulheres.
A lição parece-me clara: produzir mais só cria verdadeiro desenvolvimento quando existe capacidade para conservar, transformar, transportar e vender melhor. Precisamos, portanto, de construir pontes: entre a lavra familiar e as grandes fazendas; entre produtores e universidades; entre o campo e os laboratórios; entre agricultura e saúde; entre produção e logística; entre a aldeia e o supermercado. E talvez seja também altura de exigirmos mais aos proprietários das grandes extensões de terra.
Não apenas que cultivem, mas que integrem. Que criem oportunidades de formação. Que estabeleçam cadeias de fornecimento com os produtores vizinhos. Que promovam emprego digno. Que introduzam conhecimento e tecnologia. Que apoiem o desenvolvimento das comunidades onde estão inseridos. Porque um agronegócio cercado de pobreza não pode considerar-se verdadeiramente bem-sucedido. É neste ponto que trago uma visão que, na Prana Angola, procuramos olhar de forma holística: a agricultura não é apenas produção. É um sistema vivo. Solo, água, plantas, animais, famílias, economia, saúde e comunidade estão ligados.
Quando degradamos uma parte deste sistema, mais cedo ou mais tarde pagamos noutra. Quando cuidamos do solo, protegemos também a água. Quando produzimos alimentos de qualidade, estamos igualmente a investir na saúde. Quando capacitamos mulheres e jovens, fortalecemos famílias e comunidades.
Quando um agricultor consegue viver dignamente do seu trabalho, não estamos apenas a melhorar uma exploração agrícola: estamos a criar desenvolvimento local. Esta forma de pensar obriga- -nos a deixar de ver a terra exclusivamente como um activo financeiro.
A terra é também responsabilidade. Talvez o futuro agrícola de Angola não esteja em escolher entre tradição e modernidade, entre pequena e grande escala, entre lucro e sustentabilidade, mas em saber unir o melhor de cada dimensão. Precisamos de tecnologia, mas também de consciência. Precisamos de escala, mas também de propósito. Precisamos de investidores, mas também de agricultores formados. Precisamos de produção, mas também de solos vivos e água protegida.
E precisamos, naturalmente, de exportar. Mas primeiro precisamos de construir uma verdadeira cultura nacional de qualidade, que nos permita olhar para aquilo que produzimos e dizer, com segurança e orgulho: Isto é bom para Angola. E é suficientemente bom para o mundo.
A agricultura pode gerar riqueza. E deve gerar riqueza. Mas existe uma riqueza que vem antes do balanço financeiro: a saúde das pessoas, a fertilidade da terra e a dignidade das comunidades. Por isso, a minha reflexão - e também a minha dica - para este mês é simples: No agronegócio, coloquemos a saúde das pessoas antes do lucro. Porque o verdadeiro sucesso de quem trabalha com a terra não deveria medir-se apenas pela quantidade de riqueza que consegue retirar dela. Deveria medir-se também por aquilo que é capaz de devolver à terra, às pessoas e às próximas gerações.











