"Fico triste ao ver que as nossas televisões compram mais a produção de fora do que investem na nacional"
No meio dos preparativos para as gravações da saga "Filhos do Sol II", o cineasta, Ngouabi Silva, lembra que num contexto marcado por falta de oportunidades para a classe, são estas produções que garantem um emprego temporário e uma remuneração para os actores em fase inicial da carreira.
Está tudo pronto para começar as gravações do "Filhos do sol II"?
Falta fazer alguns ajustes, mas a grande parte já está feita. Tivemos o apoio do Ministro da Cultura, é mais uma porta que está se abrir. O actual ministro é bem mais atencioso, talvez seja por ser também um artista. Tem outra sensibilidade, é mais participativo nos eventos, tem tido maior abertura para a classe artística e está mais voltado para a cultura. É de reconhecer que com a chegada de Filipe Zau muita coisa tem melhorado.
A saga tem a particularidade de passar em cinco províncias e desta vez vai à Benguela. Ela surge como a segunda da lista porquê?
Esta saga, um conjunto de cinco filmes, retracta a luta contra o bem e o mal, sendo que a história iria começar fora de Luanda para valorizar as outras províncias, localidades e regiões, que têm a sua própria cultura e possuem pontos turísticos importantes. Começámos pela Huíla, vamos para Benguela, Namibe, Cabinda e só no final, iremos gravar em Luanda, Foi uma estratégia propositada porque a história do filme foi concebida nestes moldes.
Significa que existe a necessidade de descentralizar para que as outras províncias tenham mais oportunidades de se desenvolverem?
Sim. Há essa necessidade por que a inclusão faz com que outras pessoas se interessem mais. Por outro lado, gostávamos também de ser mais originais, fazendo coisas que os outros colegas não fizeram ainda. Procuramos sempre isso, alguma inovação para não estarmos sempre dentro do comercial e mantermos aquele aspecto autoral. Na verdade, é o que nos distingue.
Em cada uma dessas produções vão procurar fazer parcerias com produtores e actores locais?
Um dos nossos objectivos é trabalhar com produtores e actores locais. Antes de nos deslocarmos para fazer as filmagens, enviámos uma equipa de "avanço" para dialogar com o governo provincial, os grupos teatrais, os parceiros de cinema, para termos técnicos de apoio e actores locais. É uma forma de inclusão.
Quais são os critérios que utilizam para fazerem as parcerias? A essa altura, esses parceiros e actores já foram seleccionados?
Fomos para Benguela em 2025, realizámos um casting onde tivemos mais de 350 candidatos e selecionamos 100 actores que farão parte da figuração e de outros papéis no filme. Para além de criarmos empregos temporários, é também uma forma de valorização destes profissionais, porque em Angola, produzir em grande escala ou fazer obras com um orçamento elevado, é raro. Os parceiros também já estão seleccionados, pretendemos começar a gravar já em Agosto e no total, o filme vai contar com um elenco de 150 profissionais.
É um número considerável. Como vai remunerar esses actores?
Infelizmente no nosso cinema não há muito rendimento. O nosso projecto, apesar de ser ambicioso, não tem grandes verbas. No entanto, as ofertas variam de acordo ao papel, desempenho, experiência e prestígio do actor. Por exemplo, o elenco principal poderá receber até 700 mil kwanzas. Já o figurante são 20 mil kwanzas.
De 700 a 20 mil kwanzas há uma disparidade grande nos valores.
Se tivéssemos mais dinheiro, com certeza pagaríamos mais. Imagina ter que pagar 50 mil Kz a 100 pessoas. Também é muito difícil negociar com actores consagrados. Imagina alguém que receba entre 1 a 3 milhões de kwanzas em outros projectos e, nós só podemos oferecer 700 mil kwanzas? E ainda ter que enquadrar alguém que está a começar ou que nunca teve uma remuneração pelo seu trabalho como actor?
Então quem está a começar deve ser sacrificado?
Infelizmente, essa é a realidade. Quem está a começar deve ter a humildade de aceitar o que lhe oferecem, porque há pessoas que aceitam representar gratuitamente por se interessaram pelo enredo do filme. No mundo do cinema, as pessoas devem valorizar as oportunidades e aceitarem aquilo que lhes é oferecido. É uma questão de colocar na balança, se mais vale ter talento e ficar em casa, ou, se é de preferência ter a imagem exposta numa produção que venha ter alcance global, onde poderá ter mais visibilidade e oportunidades.
Quanto tempo demoram as gravações?
Estamos a prever que as gravações ocorram num período de 14 dias, pois a maioria das cenas iremos gravar aos finais de semana porque, infelizmente, para muitos actores as prioridades são outras. O cinema, embora seja a nossa paixão, é uma profissão de segundo plano porque não se vive só do cinema.
















