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Opinião

Soberania digital | Criar, proteger e competir no ciberespaço

CONVIDADO

A soberania digital não será construída apenas com leis, nem apenas com equipamentos, centros de dados ou sistemas de segurança. Será construída sobretudo através de competências, empresas, inovação, segurança e capacidade de transformar conhecimento em valor económico.

Falar de soberania digital já não pode significar apenas falar de infraestruturas tecnológicas, conectividade ou segurança informática. Num mundo em que a economia, os serviços públicos, as empresas e a vida dos cidadãos dependem cada vez mais do espaço digital, a soberania digital precisa de ser entendida como uma capacidade nacional de criar, proteger e gerar valor no ciberespaço.

Por isso, defendo que uma estratégia nacional de soberania digital precisa de reunir três dimensões fundamentais: capacidade tecnológica para criar, capacidade de cibersegurança para proteger e capacidade empreendedora para competir, comercializar, escalar e gerar valor económico no ciberespaço.

1. Capacidade tecnológica para criar

Nenhum país pode aspirar a uma verdadeira autonomia digital se depender permanentemente de soluções desenvolvidas no exterior para responder aos seus próprios desafios. Ter capacidade tecnológica significa desenvolver conhecimento, empresas, plataformas, aplicações, sistemas e infraestruturas capazes de responder às necessidades nacionais e, progressivamente, de alcançar mercados internacionais.

Angola possui uma geração jovem com capacidade para programar, criar conteúdos, desenvolver negócios digitais e encontrar soluções inovadoras. O desafio está em transformar esse potencial humano em capacidade produtiva e tecnológica nacional. Não basta consumir tecnologia. É necessário criar tecnologia.

2. Capacidade de cibersegurança para proteger

Criar sem proteger significa construir sistemas vulneráveis. À medida que aumenta a digitalização da economia e da Administração Pública, aumentam também os riscos associados à interrupção de serviços, perda de dados, ataques a infraestruturas críticas e comprometimento de sistemas estratégicos. A cibersegurança, por isso, não deve ser tratada apenas como uma questão técnica reservada aos especialistas de informática. É uma questão de segurança nacional, continuidade económica, confiança institucional e protecção dos cidadãos e das empresas. Uma estratégia nacional de soberania digital precisa de proteger aquilo que cria. Mas existe uma terceira dimensão que muitas vezes recebe menos atenção.

3. Capacidade empreendedora para competir

Podemos ter tecnologia e segurança, mas se não conseguirmos transformar essas capacidades em negócios sustentáveis, estaremos apenas a construir capacidade de consumo interno. A soberania digital também depende da existência de empresas nacionais capazes de competir no próprio ciberespaço. Isso significa criar produtos, comercializar serviços, conquistar clientes, escalar plataformas, gerar empregos, aumentar receitas fiscais e conquistar mercados dentro e fora de Angola.

O empreendedor digital não deve ser visto apenas como alguém que procura emprego. Ele pode ser também um produtor de tecnologia, fornecedor de serviços, criador de mercados e gerador de valor económico. É neste ponto que a soberania digital encontra a economia.

O verdadeiro desafio é integrar as três dimensões

Criar, proteger e competir não podem funcionar como políticas isoladas. Tecnologia sem empreendedorismo pode transformar-se em investigação sem mercado. Empreendedorismo sem tecnologia pode criar dependência de soluções estrangeiras. Tecnologia e empreendedorismo sem cibersegurança podem produzir vulnerabilidades estratégicas.

A verdadeira estratégia está na integração: Criar proteger competir escalar gerar valor Esta visão permite compreender que a soberania digital não significa fechar o país ao mundo ou rejeitar tecnologias internacionais. Significa, sobretudo, ter capacidade para participar no mercado digital em condições de maior autonomia, segurança e competitividade.

Angola precisa de transformar o ciberespaço em espaço económico

O ciberespaço não deve ser visto apenas como um ambiente de comunicação. É também um mercado. É onde se vendem serviços, fazem-se pagamentos, desenvolvem-se negócios, criam-se empregos, circula publicidade, captam-se investimentos e se constroem novas empresas.

Por isso, discutir soberania digital sem discutir empreendedorismo digital, plataformas nacionais, formalização, tributação, inovação e competitividade significa analisar apenas uma parte do problema. Uma política nacional de soberania digital deve criar condições para que mais jovens possam transformar um computador, tablet ou smartphone numa ferramenta de produção económica. Deve também permitir que empresas nacionais desenvolvam soluções capazes de disputar espaço com grandes plataformas internacionais.

Soberania digital é também soberania económica

Quando grande parte do valor gerado num determinado mercado digital é capturado por plataformas externas, existe uma dimensão económica da dependência que precisa de ser analisada. A questão não é impedir a participação de empresas estrangeiras. A questão é criar condições para que empresas angolanas também possam competir, inovar e capturar valor dentro do seu próprio mercado e, posteriormente, exportar os seus serviços. Um país que cria tecnologia, protege os seus activos digitais e possui empresas capazes de competir internacionalmente estará muito melhor preparado para enfrentar a economia do futuro.

Conclusão

A soberania digital não será construída apenas com leis, nem apenas com equipamentos, centros de dados ou sistemas de segurança. Será construída sobretudo através de competências, empresas, inovação, segurança e capacidade de transformar conhecimento em valor económico. Por isso, continuo a defender uma visão integrada: "Uma estratégia nacional de soberania digital precisa de reunir três dimensões: capacidade tecnológica para criar, capacidade de cibersegurança para proteger e capacidade empreendedora para competir, comercializar, escalar e gerar valor económico no ciberespaço." Angola não deve limitar-se a estar conectada ao mundo digital. Deve também ter capacidade para criar, proteger e competir nesse mundo.

Tomás Alberto, Empresário na área das tecnologias digitais

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