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Grande Entrevista

"A inteligência artificial é só mais uma camada em cima do jogo geopolítico"

CARLOS MELO | PCA DA SISTEC

Mais do que uma abordagem sobre a Sistec e as empresas angolanas, a conversa permitiu analisar o impacto da inteligência artificial. Uma coisa é certa: sem cidadãos bem preparados, o papel de Angola (e de África) será marginal.

A evolução recente da tecnologia e das máquinas ficou marcada pela expressão "inteligência artificial", que parece ajudar a humanizar os sistemas informáticos, ao mesmo tempo que carrega uma vertente comercial, que facilita a aceitação social. Mas afinal o que é a inteligência artificial?

Eu não tenho certeza se o termo inteligência artificial surgiu com um fundamento puramente comercial. Eu diria que com essa designação, se calhar é mais fácil de interpretar o que é a chamada inteligência artificial. Depois, se formos um pouco mais a fundo, se calhar é abusivo falarmos de inteligência enquanto tal, porque a chamada inteligência artificial não tem aquilo que a inteligência humana tem, que é a intenção de fazer alguma coisa. Ela é programada para fazer aquilo que nós determinamos que vai fazer. Depois, naturalmente, há graus de autonomia que vai adquirindo. Mas a primeira etapa é, tem consciência ou não tem? Parece-me que não tem. Tem intenção, quando nasce, de fazer alguma coisa ou não? Não, também não tem. É abusivo chamarmos de inteligência, mas dá jeito. Como estamos todos confortáveis com o termo, acho que não é um problema.

Um vídeo de 2015 mostra um robô a tentar dançar. Não se aguentava em pé. Em 2025, o robô-dançarino é quase perfeito. As máquinas têm tanto potencial que agora podem ter iniciativa própria. Estamos perante um perigo ou uma oportunidade?

Sou mais pela oportunidade. O perigo existe sempre. O perigo é sempre relativo e condicionado. Quando apareceu a luz eléctrica, havia perigo, claramente. Morreu muita gente. Mas o benefício que nos trouxe foi incomparavelmente superior. Quando apareceu a internet, o mesmo assunto. Eu ainda me lembro quando estava na universidade e falava-se já da internet, que era vista como uma grande oportunidade. E havia imensos perigos à volta disso: a regulação, como é que ia ser, quem dá informações a quem. Mas hoje não se põe em causa que o benefício é muito maior do que o perigo. O mesmo se passará com a inteligência artificial. Ainda estamos num estágio de desenvolvimento primário. Temos poucos anos disto.

Mas já está a influenciar bastante a vida de empresas, governos.

E de uma maneira muito positiva. Contam-se, pelos dedos das mãos, os assuntos em que a inteligência artificial terá desvirtuado a sua função. É infinitamente melhor ter acesso do que não ter. Acho que isso é um não-assunto. Mas dá jeito para fomentar discussões como esta, dá jeito para que as grandes empresas possam também estar aqui a falar desses perigos. Há aqui algum aproveitamento, não só aproveitamento do ponto de vista comercial, mas também para termos estas conversas. Acho que é um tipo de conversa interessante, até para debatermos coisas filosóficas, o que é inteligência, o que é ou não é. Mas não vejo isso como um perigo.

São temas centrais, que envolvem questões de regulação, apropriação, ética, etc. Como se devem posicionar países como Angola?

Eu penso que o Ministério da História e da Comunicação está com alguma preocupação ao nível da regulação. As coisas andam mais depressa do que a regulação. A regulação normalmente chega depois das coisas já estarem a acontecer. E nós não temos ainda capacidade para a criação de coisas novas. O que nós fazemos é a adopção de plataformas (ou conhecimento) que já existem. E isso não é mau. É uma primeira etapa da aprendizagem. A curto prazo, o que iremos fazer é justamente criar, e estamos a fazê-lo, um ambiente onde possamos tirar proveito daquilo que já existe. Das plataformas de inteligência artificial que já existem, das soluções que já existem, para adaptá-las àquilo que nós pretendemos e aos diversos sectores de actividade.

Leia o artigo integral na edição 895 do Expansão, sexta-feira, dia 25 de Setembro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui

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