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Opinião

Regular sem produzir? O paradoxo da Inteligência Artificial em Angola

CONVIDADO

É preciso criar razões económicas para que a Inteligência Artificial seja produzida, apropriada e disseminada dentro do país. Um país pode redigir códigos sofisticados para plataformas que não criou; proteger dados que não sabe transformar em inovação; disciplinar mercados digitais cuja propriedade intelectual, infra-estrutura e rendas permanecem no estrangeiro.

«O poder de produzir riqueza é infinitamente mais importante do que a própria riqueza.» Friedrich List

Quando a lei precede a oficina

Nem todas as nações transpõem o umbral de uma revolução tecnológica pela mesma porta. Algumas chegam pelo laboratório, pela universidade, pelo capital de risco ou pela oficina onde o conhecimento se transmuta em indústria. Outras chegam primeiro pelo código jurídico. É nessa precedência da norma sobre a produção que se insinua um dos paradoxos mais subtis da economia digital contemporânea. Regular é erguer fronteiras de responsabilidade, instituir princípios, distribuir competências e domesticar riscos. Produzir, porém, reclama uma matéria muito mais escassa: empresas capazes de inovar, capital paciente, engenheiros, investigadores, dados utilizáveis, potência computacional, universidades ligadas ao tecido económico e mercados onde a invenção encontre escala. Entre a potestade de ordenar a tecnologia e a faculdade de a criar abre-se, por conseguinte, uma fenda que pode tornar-se a nova cartografia da dependência.

O Government AI Readiness Index 2025 torna essa disjunção particularmente visível. A dimensão Governance procura aferir a existência de princípios, instituições e mecanismos capazes de orientar o desenvolvimento e a adopção da Inteligência Artificial, incluindo a conformidade regulatória. Já Development & Diffusion interroga uma realidade mais telúrica: a maturidade do sector doméstico de IA, a disponibilidade de capital humano e a capacidade de disseminar tecnologia entre empresas, universidades, investigadores e sociedade civil.

gadores e sociedade civil. A teoria da mudança proposta pela Oxford Insights contém uma intuição decisiva: governação, política pública e infra-estrutura são apenas condições antecedentes. O benefício económico e social só se materializa quando aquelas capacidades desembocam em adopção, desenvolvimento e difusão. É precisamente nesta passagem - entre a norma e a oficina, entre o decreto e a aprendizagem produtiva - que grande parte da África Subsaariana ainda encontra o seu estreito.

Nos 48 países analisados, a média de Regulatory Compliance ascende a 39,81 pontos. A de AI Sector Maturity reduz-se drasticamente para 8,25, enquanto AI Technology Diffusion se situa em 26,27. A assimetria é eloquente: a região parece adquirir mais rapidamente a gramática institucional da Inteligência Artificial do que a musculatura económica necessária para a produzir. Há progresso na edificação das regras; muito menos na sedimentação das capacidades que transformam algoritmos, dados e conhecimento em valor endógeno.

O próprio relatório reconhece avanços em Governance e Policy Capacity, mas continua a assinalar carências persistentes em infra-estruturas, investigação, talento especializado, financiamento e comercialização tecnológica. A arquitectura institucional sobe; o aparelho produtivo permanece, em numerosos casos, rarefeito. Todavia, seria falacioso imaginar um continente imóvel. A Nigéria combina 70 pontos em Regulatory Compliance com 28,79 em AI Sector Maturity e 44,23 em difusão tecnológica. O Quénia reúne 80 pontos de conformidade regulatória e 47,99 em AI Technology Diffusion. A África do Sul, por sua vez, alcança 78,17 em regulação e 54,78 em difusão. A Oxford Insights destaca a Nigéria pelo investimento no sector doméstico de IA e o Quénia pela vitalidade do seu ecossistema de inovação e startups.

Os próprios dados sugerem uma associação relevante: a correlação entre Regulatory Compliance e AI Sector Maturity aproxima-se de 0,64; entre conformidade regulatória e difusão tecnológica, o coeficiente é igualmente de cerca de 0,64. Importa, porém, resistir ao fascínio da causalidade fácil. Trata-se de uma fotografia transversal. Ecossistemas tecnológicos maduros podem coexistir com regimes regulatórios mais sofisticados sem que estes sejam, necessariamente, a causa daqueles. É neste intervalo analítico que Angola adquire particular força explicativa.

ANGOLA | a discordância entre a norma e a potência produtiva

Angola alcança 63,56 pontos em Regulatory Compliance: aproximadamente 60% acima da média subsaariana e suficiente para ocupar o 8.º lugar regional nesta dimensão. À primeira vista, trata-se de uma posição auspiciosa. Todavia, quando o olhar se desloca da arquitectura normativa para a capacidade produtiva, a paisagem altera-se abruptamente. O indicador AI Sector Maturity cai para apenas 4,37 pontos, quase metade da média regional. A AI Technology Diffusion permanece nos 15,40 pontos, longe dos 26,27 observados no conjunto subsaariano.

O hiato entre conformidade regulatória e maturidade do sector alcança, assim, impressionantes 59,19 pontos; entre regulação e difusão, a distância ainda é de 48,16 pontos. A mesma desproporção reaparece ao nível dos pilares. Angola obtém 53,03 pontos em Governance, superando a média regional de 41,60. Porém, em Development & Diffusion, alcança apenas 14,14, abaixo dos 19,71 pontos da África Subsaariana.

O diagnóstico é quase lapidar: Angola dispõe de uma institucionalidade regulatória relativamente mais desenvolvida do que o ecossistema económico incumbido de criar, adaptar, absorver e propagar a tecnologia. Não estamos, portanto, perante uma ausência simples do Estado. Estamos perante algo mais complexo: uma disjunção entre o Estado que regulamenta e a economia que aprende.

A lei pode ordenar o campo. Não pode, sozinha, fecundá-lo. A questão deixa, então, de pertencer exclusivamente ao domínio da transformação digital. Torna-se uma questão de política industrial. Angola necessita de converter a sua capacidade regulatória em procura tecnológica, contratação pública inteligente, formação avançada, financiamento empresarial, investigação aplicada e nexos permanentes entre universidades, empresas e sectores produtivos. Não basta possuir normas sobre a Inteligência Artificial.

É preciso criar razões económicas para que a Inteligência Artificial seja produzida, apropriada e disseminada dentro do país. Um país pode redigir códigos sofisticados para plataformas que não criou; proteger dados que não sabe transformar em inovação; disciplinar mercados digitais cuja propriedade intelectual, infra-estrutura e rendas permanecem no estrangeiro. Pode alcançar a modernidade jurídica e, simultaneamente, conservar a sua heteronomia tecnológica. É esta a advertência inscrita no caso angolano.

O desafio histórico consiste em fazer com que a regulação deixe de funcionar apenas como sentinela da tecnologia alheia e passe a operar como parteira da capacidade tecnológica nacional. Porque, no fim, soberania regulatória sem potência produtiva corre o risco de não ser soberania: apenas a gramática jurídica da dependência digital.

Na edição 896 do Expansão, sexta-feira, dia 02 de Outubro de 2026

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