Falhas marcam relatório final do Censo 2024
A margem de erro do Censo 2024 foi de 28,3%, o que significa que cerca de 10,4 milhões de angolanos ficaram por contabilizar.
O último recenseamento geral da população, que deve ser realizado de dez em dez anos, foi marcado por atrasos e falhas operacionais que são visíveis no relatório final do Censo 2024. Uma das limitações pode ser verificada através da comparação entre o questionário individual (que deveria ter sido usado nas entrevistas com os cidadãos) e os dados publicados oficialmente pelo Instituto Nacional de Estatística.
A secção dedicada ao emprego, por exemplo, apesar de incluir 21 questões específicas, não tem respaldo no relatório final, que não apresenta qualquer indicador sobre emprego ou economia, ao contrário do que aconteceu em 2014, quando foram publicados vários indicadores sobre a população economicamente activa, taxa de actividade, taxa de emprego e população desempregada.
Outra questão importante no recenseamento é a possibilidade de comparar séries estatísticas. Mas entre 2014 e 2024 diversas categorias foram criadas (ou recriadas) com elementos diferentes, que muitas vezes não são comparáveis, o que limita o entendimento sobre a evolução dos indicadores.
Por outro lado, a margem de erro de cobertura líquida do Censo 2024, que custou cerca de 300 milhões USD aos cofres públicos, foi de 28,3%, o que signifi ca que cerca de 10,4 milhões de angolanos ficaram por contabilizar, num universo populacional estimado em 36,6 milhões de habitantes.
O principal instrumento para medir a população real de um país e produzir uma base exaustiva de indicadores essenciais para a definição de políticas sociais e económicas, fica assim reduzido a uma "mera estimativa", dada a fragilidade dos dados obtidos. Só para se ter uma ideia da baixa qualidade que o documento representa, tudo o que seja acima dos 10% de exclusão de população é classificado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um mau censo, conforme é possível verificar num quadro que foi publicado na página 24 do Censo de há dez anos.
Na ocasião, a tabela da ONU, INE no Censo de 2014 para justificar a qualidade do inquérito realizado naquele ano, estabelece que o grau de omissão é considerado "muito bom" quando se situa entre 2% e 4% da população excluída. "Bom" entre 5% e 8% (caso do Censo de 2014), "regular" entre 9% e 10% e "mau" quando supera 10%.
No recenseamento de 2024, a subcobertura foi maior na área urbana (32,2%), onde teoricamente o acesso é mais fácil e onde se concentra mais de 66% da população angolana. Nas zonas rurais, a exclusão atingiu 25,6%.











