Desconfiança
Quando maior for a divisão das pessoas, quanto menor for a prática de promover a inclusão, mais fácil será manipular e impor as vantagens pessoais de um grupo muito restrito de pessoas. Quando se passa esta prática para a relação económica entre nações, o resultado é previsível - os ricos ficam mais ricos e os pobres mais endividados.
Já repararam que cada vez mais desconfiamos uns dos outros? Que muitas vezes a primeira reacção a uma história ou facto que nos é contado é de não acreditar, mesmo que seja algo que pareça fazer sentido ou responda a uma necessidade nossa? Que, no entanto, raramente verbalizamos esta reacção em frente ao visado ou intervenientes, e só o fazemos perante outros ou nas redes sociais onde não existe confronto visual? E também, quando verificamos que afinal tudo era verdade, não somos capazes de o reconhecer publicamente e pedir desculpas por estas nossas desconfianças?
Podemos argumentar que numa sociedade em que o indivíduo está cada vez mais isolado, longe vão os tempos em que os nossos vizinhos eram da família, em que se multiplicam as histórias de burlas, mentiras ou fraudes à nossa volta, ajuda a que cresça este sentimento. Mas também houve alguma inversão de valores, o que nos faz ser cada vez mais desconfiados, premeiam- se os aldrabões desde que não sejam apanhados, os que roubam desde que nos dêem uma pequena percentagem, os manipuladores desde que sejam populares. Em paralelo assiste- se à condenação social dos que acreditam por opção, a ingenuidade parece ser um valor horrível, a aceitação das regras é mesquinhez e o cumprimento das normas é burrice. Os sentimentos positivos e a boa energia estão desactualizados.
Este é o verdadeiro combustível das seitas religiosas, dos partidos extremistas, dos líderes fascistas, dos empresários sem escrúpulos, dos sentimentos colonizadores. Quando maior for a divisão das pessoas, quanto menor for a prática de promover a inclusão, mais fácil será manipular e impor as vantagens pessoais de um grupo muito restrito de pessoas. Quando se passa esta prática para a relação económica entre nações, o resultado é previsível - os ricos ficam mais ricos e os pobres mais endividados.
Por isso, hoje é o meu momento de tentar falar da importância da confiança. De sermos capazes de acreditar que os outros estão a fazer por bem, que existem razões para que ajam desta ou daquela forma, de fazermos todos um esforço para que a nossa primeira reacção a tudo o que nos acontece não seja de desconfiança, de procurar um culpado, de sacrificar alguém. Em abono da verdade, prefiro que me reconheçam como ingénuo do que como "mau-carácter".
Eu sei que não é fácil, que existem milhares de casos de aproveitamentos ilícitos, mas o desenvolvimento só vai ser possível se utilizarmos mais vezes a tal variável oculta das fórmulas económicas, a confiança. Vamos lá confiar mais uns nos outros para que possamos crescer todos juntos. Acreditem que manter esta mesma postura de desconfiança só alimenta os que vivem à sombra da divisão e da exclusão. E não vamos ter uma País melhor.














