Exportações caem 17% e arrastam balança comercial para o pior saldo no pós-Covid
O petróleo liderou a queda das vendas ao exterior. Gás e diamantes até tentaram levantar as exportações, mas o impacto foi limitado pela baixa do "ouro negro". Sem esses sectores, Angola exportou apenas 647,8 milhões USD em produtos de diversificação. Conta corrente em 2025 foi a mais baixa desde 2017.
As exportações de mercadorias angolanas caíram 17% para 30.555,5 milhões USD em 2025, menos 6.240,6 milhões face aos 36.795,0 milhões USD registados em 2024. Se as exportações caíram, o mesmo não aconteceu com as importações, já que estas cresceram 9% para 15.517,1 milhões, ou seja, mais 1.326,9 milhões USD, segundo cálculos do Expansão, com base nas estatísticas externas do Banco Nacional de Angola (BNA).
Com isso, a balança comercial, o saldo entre as vendas para o exterior e as importações, caiu 33% em 2025, fixando-se em 15.038,4 milhões USD, em comparação com os 22.604,8 milhões registados no final de 2024. Trata-se do valor mais baixo desde o período pós-pandemia, sendo que, nos últimos nove anos, apenas em 2020 apresentou um resultado pior, quando o comércio internacional foi fortemente abalado pela pandemia da Covid-19.
E a culpa continua a ser do suspeito de costume, o sector petrolífero, cujas vendas para o exterior caíram 9% para 24.439,8 milhões USD (-6.958,0 milhões USD), devido à queda não só do preço médio das ramas angolanas, que passou de 79,8 USD para uma média de 68,4 USD por barril (-14%), mas também da produção petrolífera que tem estado a cair. Só para se ter uma ideia, entre Janeiro e Dezembro do ano passado, as petrolíferas que operam em Angola produziram cerca de 378,4 milhões de barris de petróleo, o equivalente a uma média diária de 1,017 milhões de barris, o que representa uma redução de 9% face aos 1,118 milhões barris/dia produzidos em 2024, de acordo com cálculos do Expansão com base nas estatísticas da ANPG.
Assim, a queda da produção petrolífera fez com que as vendas de crude angolano recuassem de 393,7 milhões de barris contabilizados em 2024, para 357,1 milhões de barris exportados em 2025, o que significa que as petrolíferas exportaram menos 36,5 milhões de barris no espaço de uma ano. Isto, associado à queda do preço, resultou em uma queda de 22% nas receitas brutas para 24.439,7 milhões USD em 2025, as mais baixas desde 2020.
Sem o ano de 2020, que foi um ano atípico, as receitas brutas com exportações de petróleo contabilizadas em 2025 seriam as mais baixas dos últimos 20 anos. O economista Wilson Chimo co entende que a queda das exportações, afectadas pelo petróleo, acompanhado pelo aumento das importações é uma má notícia.
"Para uma economia desestruturada como a angolana, em que apenas um produto de exportação sustenta o desempenho de toda a economia interna, a redução das exportações e o incremento das importações significa que estão a esforçar as reservas do país. E se o preço do ouro inverter a tendência, poderá assistir-se a uma redução na confiança dos credores", apontou.
Para Chimoco, se a situação continuar, num cenário mais adverso, pode ser necessário terapias de choque como uma nova intervenção do FMI e uma depreciação expressiva da taxa de câmbio para estabilizar as Reservas Internacionais e dar garantias aos credores externos sobre a capacidade de pagamento da dívida externa.
Já o director do Centro de Estudos da Universidade Lusíada (CINVESTEC), Heitor Carvalho, aponta que o País terá de reduzir muito mais todas as importações supérfluas, integrar a nossa estrutura produtiva e viver mais à custa de produtos internos mais caros e com menor qualidade. "Há que reduzir as exigências e viver sem o mínimo luxo nos próximos tempos", disse. Entretanto, o ano de 2026 começou com um cenário diferente.
O surgimento do conflito no Irão fez disparar o preço do petróleo nos mercados globais para valores próximos dos 100 USD por barril, bem acima do preço médio de 68,4 USD registado nas exportações angolanas no ano passado. Este aumento deverá ter impacto positivo nas exportações do País, já que o sector de oil & gas continua a representar cerca de 92% das vendas externas.
"O aumento do preço do petróleo vai ajudar, e muito. Independentemente do cenário de importação de inflação, o efeito líquido será positivo para as contas externas do País", referiu Wilson Chimoco.
Este cenário não é novo. Em 2022, com o início do conflito entre a Rússia e a Ucrânia e a consequente subida do preço do petróleo, o Tesouro inundou o mercado cambial com divisas, valorizando artificialmente o kwanza. A factura surgiu em 2023, com uma depreciação acentuada da moeda nacional na ordem dos 39%. "O Governo não vai depreciar o câmbio antes das eleições. Mas garantidamente o fará depois de Setembro de 2027. Não é uma questão de boa ou má vontade", rematou Chimoco.











