O papel dos dados na tomada de decisão estratégica em Angola
Produzir e disponibilizar dados não é suficiente. É igualmente crítico assegurar a interoperabilidade entre sistemas e instituições. Sem interoperabilidade, os dados permanecem fragmentados e o seu valor perde-se. Com interoperabilidade, cria-se um ecossistema mais eficiente, onde a informação circula, se cruza e gera valor de forma acelerada.
Em Angola, muitas decisões continuam a ser tomadas com base na experiência, na intuição ou em informação incompleta e, por vezes, desactualizada. Durante muito tempo, isso foi suficiente. Hoje, já não é. Num contexto em que o país procura diversificar a economia, impulsionar o sector produtivo e atrair investimento, decidir sem dados é, na prática, decidir às cegas. As questões que se levantam são simples:
l Como podem o Estado e as empresas definir políticas ou estratégias eficazes sem conhecer, com precisão, as necessidades da população ou dos seus clientes?
l Como podem o Estado e as empresas lançar serviços ou produtos sem compreender o comportamento dos seus cidadãos ou clientes?
l E como podem os investidores avaliar oportunidades de investimento em Angola sem uma leitura clara do mercado?
A resposta está na informação ou, muitas vezes, na ausência dela. Como afirmou o estatístico W. Edwards Deming: "Sem dados, és apenas mais uma pessoa com uma opinião." Em Angola, muitas decisões continuam a cair exactamente neste risco, opiniões bem-intencionadas, mas pouco sustentadas.
Apesar dos avanços registados nos últimos anos, Angola ainda não produz nem disponibiliza dados na velocidade e profundidade que o seu desenvolvimento exige. Existem lacunas significativas na produção de dados e, ainda maiores, na sua disponibilização.
Muitos dados considerados públicos permanecem de difícil acesso, marcados por formalismos, demora ou ausência de canais estruturados de partilha de informação. Nas empresas, a confidencialidade e falta de práticas associativas robustas, dificultam a caracterização das cadeias-de-valor ou das fileiras produtivas.
A informação que existe é frequentemente dispersa, desactualizada ou insuficiente para suportar decisões estratégicas consistentes. A isso soma-se a limitada capacidade de reporte de muitas instituições, condicionada por fragilidades nos sistemas de informação, escassez de quadros especializados e processos internos pouco estruturados.
Como consequência, o próprio ecossistema nacional de dados torna-se fragmentado e pouco eficiente. Este contexto gera impactos profundos e transversais. Na gestão pública ou privada, a ausência de dados fiáveis compromete a definição de políticas e estratégias robustas, conduz à má alocação de recursos e reduz o impacto social das intervenções.
Na gestão empresarial, em particular, compromete a leitura do mercado, enfraquece a capacidade de antecipação e de resposta ao cliente, e reduz a eficiência operacional.
No investimento, a escassez de informação credível compromete a confiança, agrava a percepção de risco, reduz a previsibilidade dos negócios e afasta capital que privilegia contextos mais previsíveis e confiáveis.
Apesar de diferentes nas suas naturezas, estes desafios convergem numa realidade comum: em Angola, estamos maioritariamente, em alguma medida, a operar com sérias limitações de informação estatística e de suporte à decisão. E quando não sabemos com precisão onde estamos, dificilmente conseguiremos definir com clareza para onde queremos ir ou de como lá chegar.
Perante este cenário, a resposta passa por uma visão integrada, onde Estado, empresas e investidores convergem num mesmo ecossistema de decisão suportado por dados. A solução exige uma abordagem integrada e sistémica do ecossistema de dados em Angola. Isso passa, em primeiro lugar, por reforçar a produção de dados de qualidade, com processos mais estruturados, consistentes e contínuos.
Em paralelo, é fundamental garantir maior acessibilidade e transparência, simplificando mecanismos de disponibilização e promovendo uma cultura de partilha de informação. A criação de observatórios de dados sectoriais tanto no sector público como no sector produtivo pode ter um papel decisivo, permitindo gerar uma "fotografia" clara, contínua e fiável dos diferentes sectores da economia. Mas produzir e disponibilizar dados não é suficiente.
É igualmente crítico assegurar a interoperabilidade entre sistemas e instituições. Sem interoperabilidade, os dados permanecem fragmentados e o seu valor perde-se. Com interoperabilidade, cria-se um ecossistema mais eficiente, onde a informação circula, se cruza e gera valor de forma acelerada.
Por fim, torna-se indispensável desenvolver competências e capacidades analíticas que permitam transformar dados em decisões. Não se trata apenas de recolher informação, mas de a interpretar com rigor e alinhá--la aos objectivos estratégicos.
Conclusão
O futuro da competitividade em Angola dependerá, em grande medida, da forma como o país organiza, valoriza e utiliza os seus dados. Num mundo cada vez mais orientado por informação, os países e as organizações que melhor compreendem a sua realidade são os que melhor decidem e os que melhor decidem são os que mais crescem.
Angola não precisa apenas de mais dados. Precisa de um sistema integrado de produção, partilha e utilização de informação. Porque, no final, melhores dados não são apenas uma vantagem técnica, são a base para melhores decisões e, consequentemente, para um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo.
*Goreth Chiwana, Manager de Advisory da KPMG Angola











