Quanto custa um ataque cibernético?
No mundo digital, a pergunta certa deixou de ser "quanto custa investir em protecção cibernética?" e passou a ser "quanto custa não investir?". A resposta, como a UNITEL infelizmente descobriu, chega sempre de madrugada e sem avisar.
Na madrugada de 28 de Julho, milhões de angolanos acordaram sem rede. Impossível realizar chamadas, receber SMS, usar a internet móvel. A UNITEL, maior operadora de telecomunicações do país, com cerca de 21 milhões de clientes, foi alvo de um ataque informático que encriptou dados essenciais da sua infra-estrutura tecnológica e deixou todos os serviços da operadora inoperacionais em todo o território nacional. Por ironia do destino (ou talvez não), tudo isto aconteceu na véspera da sua histórica estreia em bolsa. Durante cerca de dois dias, o país sentiu na pele uma verdade desconfortável: quando uma infra-estrutura crítica pára, não pára apenas uma empresa, pára a economia.
Pagamentos que não se processam, empresas que não facturam, serviços que não funcionam. Motoristas de aplicação ficaram sem corridas, comerciantes sem terminais de pagamento e famílias sem forma de contactar os seus. Num país onde a UNITEL é, para a maioria, a única porta de acesso à internet, o apagão digital foi também um apagão económico.
Façamos contas simples. Em 2024, a UNITEL registou recebimentos na ordem dos 423 mil milhões de kwanzas, o que equivale a mais de 1,1 mil milhões de kwanzas por dia. Dois dias inoperacional representam, só em receita perdida, mais de 2 mil milhões de kwanzas (estimativa muito baixa). Esta é a estimativa mais conservadora possível, porque não inclui os custos de recuperação dos sistemas, os especialistas internacionais chamados de urgência e, o mais difícil de quantificar, o dano reputacional. A confiança demora anos a construir e pode evaporar-se numa madrugada. Estes números não são uma surpresa para quem acompanha o tema.
O mais recente relatório da IBM sobre violações de dados estima que o custo médio global de um incidente ronda os 4,4 milhões de dólares, valor que dispara quando falamos de infra- -estruturas críticas como as telecomunicações. E quanto custa prevenir? As boas práticas internacionais apontam para um investimento em cibersegurança entre 5% e 10% do orçamento de tecnologia de uma empresa.
Falamos de sistemas de monitorização, cópias de segurança testadas, planos de continuidade de negócio, testes de intrusão regulares e, sobretudo, formação das pessoas, porque a maioria dos ataques começa num simples clique num e-mail errado. Tudo somado, custa uma fracção do prejuízo de um único dia de paragem. É a matemática mais fácil que um CFO pode fazer: prevenir custa milhões, ser atacado custa milhares de milhões. O caso da UNITEL não é um caso isolado, é um aviso. Se aconteceu à maior operadora do país, pode acontecer a qualquer banco, seguradora ou empresa.
À medida que as empresas angolanas se digitalizam, e ainda bem que o fazem, a superfície de ataque cresce na mesma proporção. O risco cibernético deixou de ser um tema técnico do departamento de informática e passou a ser um risco financeiro de primeira ordem, que deve estar na agenda dos conselhos de administração, ao lado do risco cambial e do risco de crédito. Há duas perguntas que todos os gestores deviam fazer esta semana às suas equipas: "Se os nossos sistemas parassem hoje, quanto perderíamos por dia?" e "Quanto tempo demoraríamos a recuperar?".
Quem não sabe responder tem trabalho de casa por fazer. No mundo digital, a pergunta certa deixou de ser "quanto custa investir em protecção cibernética?" e passou a ser "quanto custa não investir?". A resposta, como a UNITEL infelizmente descobriu, chega sempre de madrugada e sem avisar.
Alexandre Teixeira, Director Financeiro da Easy People










