"A interferência dos accionistas na gestão das seguradoras tem criado instabilidade no negócio"
O especialista em seguros denuncia a ingerência dos accionistas na gestão de determinadas empresas de seguros a nível do mercado, facto que, segundo Pascoal Diogo, que actualmente actua como corrector de seguro e resseguro, tem gerado desconforto e criado instabilidade na gestão das companhias.
Como caracteriza o sector segurador à luz do actual contexto económico do País?
O mercado segurador no País é robusto, com uma supervisão da ARSEG eficiente. Temos 21 seguradoras, temos cerca de 5 mil mediadores individuais e coletivos, e temos cerca de 10 fundos de pensão, uns abertos e outros fechados. Em termos de produção de 2025, estamos a falar de mais de 500 mil milhões Kz em termos de prémios brutos emitidos, quer dizer que o mercado está a crescer, embora este crescimento não nos ajude a ter uma penetração de seguros elevada, valor dos prémios sobre o PIB do País, que ainda é de cerca de 0,6%.
Mesmo com as dificuldades por que passa a economia do País, acha que o mercado tem muita margem de crescimento?
Acredito que sim, pois prevíamos há 10 ou 15 anos que teríamos uma penetração de 1%, 2% ou 3% e ainda não conseguimos atingir esses números. Isso mostra que ainda temos muitas empresas que não estão a fazer seguros de acordo com a lei, e muitos angolanos que não têm seguros em termos individuais. Então, quer dizer que a margem de crescimento ainda é boa, e podemos pensar em ter uma penetração de seguros em torno de 3%, 4%, 5% nos próximos anos. Este é o desejo das seguradoras e também do regulador, mas para atingirmos este patamar temos de resolver determinados factores que impedem um maior desenvolvimento do sector.
Que factores são esses?
O maior problema prende-se com a própria economia angolana, que está num modelo em que o poder de compra da população é muito baixo e isso faz com que as pessoas deixem de adquirir certos bens e serviços, e o seguro é um deles. Com um salário mínimo a rondar os 100 mil Kz e olhando para o custo de vida torna-se muito difícil ao pacato cidadão fazer um seguro, a não ser que esteja virado para os micro seguros. Nas actuais condições, a prioridade recai na satisfação das necessidades imediatas, como a alimentação e saúde, e as pessoas não vão olhar para necessidades de autoestima ou auto realização, porque os seguros, dentro da sua componente social, acabam por ser um factor de conforto, de poupança, segurança e protecção, porque na sua essência os seguros cobrem riscos futuros e imprevistos.
Mas há cidadãos com maior poder de compra.
Um dado curioso é que, inclusive aqueles que gozam de bons salários, também não querem fazer seguros. Não é só a população de baixa renda que não tem cultura de seguros, a classe média e inclusive a média--alta ou mesmo alta também faz questão de deixar andar e achar que os riscos ou acidentes nunca vão acontecer consigo ou com os seus bens. A falta de literacia financeira, o fraco poder de compra faz com que muitos seguros não sejam feitos. Outra questão é que temos poucos seguros obrigatórios. É todo um processo que não envolve só os players, mas também a própria sociedade que tem de evoluir e contribuir positivamente para o desenvolvimento da cultura dos seguros.











