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Estudo sobre a bebida kissangua publicado em revista internacional

LIGAÇÃO ENTRE A ACADEMIA E A ECONOMIA REAL

O estudo foi feito pelos investigadores e docentes da Universidade Rainha Njinga a Mbande (URNM), Isabel Balanga Pedro e Bettencourt Munanga com a participação de um estudante de tecnologia agro- -alimentar, Emanuel Braga, e publicado na revista americana Journal of Food and Nutrition Sciences.

A produção científica nacional começa, lentamente, a dar sinais de maturidade e de ligação a activos económicos locais, rompendo com uma tradição excessivamente teórica e distante da realidade produtiva. O mais recente exemplo surge da Universidade Rainha Njinga a Mbande, onde um grupo de investigadores conseguiu transformar um produto tradicional - a kissangua - em objecto de estudo estruturado, com publicação numa revista científica internacional de referência, a Journal of Food and Nutrition Sciences. Mais do que um exercício académico, trata-se de um sinal relevante sobre o potencial económico ainda subexplorado de produtos endógenos angolanos.

O estudo, que envolveu 35 produtores e 100 consumidores nas cidades do Huambo, Malanje e Kuito, não se limita a descrever práticas tradicionais, indo mais longe ao cruzar dimensões tecnológicas, sensoriais e socioeconómicas da produção de kissangua.

Esta abordagem integrada revela, desde logo, uma mudança de paradigma: a academia começa a olhar para os produtos locais não apenas como património cultural, mas como potenciais activos industriais com viabilidade económica, ainda que condicionada por factores muito específicos do comportamento do consumidor .

Do ponto de vista económico, o estudo traz dados concretos que ajudam a enquadrar a cadeia de valor desta bebida. As margens de comercialização variam entre cerca de 160 Kz por litro em Malanje e aproximadamente 240 Kz no Huambo e Kuito, evidenciando assimetrias regionais que podem estar associadas tanto a custos de produção como à própria dinâmica de mercado local.

Esta diferença, aparentemente marginal, levanta questões relevantes sobre eficiência produtiva, acesso a matérias-primas e elasticidade da procura, factores que devem ser considerados em qualquer tentativa de escalonamento industrial. Mas é sobretudo na dimensão da industrialização que o estudo ganha maior relevância estratégica. A investigação conclui que a transformação da kissangua num produto industrial é tecnicamente viável, mas economicamente dependente de um factor crítico: a capacidade de replicar, em escala, características sensoriais profundamente enraizadas nas preferências dos consumidores.

A fermentação natural, o sabor das raízes locais (mbundi no Huambo e Kuito, mucundu em Malanje) e o equilíbrio entre acidez e doçura não são meros detalhes - são elementos estruturais da aceitação do produto . A experiência falhada da industrialização anterior - com a introdução da "Compal Kissangua da Banda" em 2018 - surge, neste contexto, como um estudo de caso quase didáctico.

O produto foi rejeitado não apenas pelo preço elevado, mas sobretudo por ser percepcionado como "artificial", falhando precisamente nos atributos que o estudo agora identifica como críticos para o sucesso. Ou seja, a tentativa de industrialização ignorou aquilo que este novo trabalho académico demonstra: que o valor económico da kissangua está intrinsecamente ligado à sua autenticidade.

Os dados recolhidos reforçam esta leitura. Cerca de 67,62% dos inquiridos nunca ouviram falar de versões industrializadas e 84% nunca as consumiram, enquanto os poucos que experimentaram apontaram falhas claras na qualidade sensorial, desde a ausência de ingredientes tradicionais até deficiências no processo de fermentação.

Ainda assim, existe uma base potencial de mercado, desde que essas limitações sejam ultrapassadas - o que abre espaço para modelos híbridos entre produção artesanal e industrial, eventualmente com certificação de origem ou processos semi-industriais adaptados às especificidades regionais.

Em termos mais amplos, este trabalho levanta uma questão central para a economia angolana: até que ponto o País está preparado para transformar conhecimento científico em valor económico?

A existência de investigação aplicada, publicada em revistas internacionais, é um passo importante, mas insuficiente se não houver mecanismos de ligação ao sector empresarial, financiamento à inovação e políticas públicas que incentivem a industrialização de produtos locais com base em evidências científicas.

A kissangua, neste caso, funciona como exemplo de um universo muito mais vasto de produtos tradicionais que permanecem fora dos circuitos formais da economia. O estudo demonstra que há conhecimento, há mercado e há potencial de margem. Falta, como tantas vezes, a ponte entre a academia e a indústria - e, sobretudo, a capacidade de transformar tradição em escala sem destruir aquilo que lhe dá valor económico: a autenticidade.

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