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"Aproveitamos passar nas peças de teatro as reclamações da população"

MANUEL TEIXEIRA – ACTOR

Conhecido como Avô Ngola, o actor quer ser lembrado com as características deste personagem que interpretou há mais de 20 anos. Ao Expansão, lamenta as dificuldades que a sua arte ainda enfrenta, mas diz resistir para que a nova geração encontre estruturas solidificadas.

Com 40 anos de teatro. Qual é o balanço que faz do seu percurso artístico?

Faço um balanço positivo. Positivo pelo feedback que recebemos do nosso público, pelos vários personagens que tenho interpretado e que se têm reflectido de alguma forma na vida das pessoas. Não só a personagem Avô Angola, mais popular, mas de todos os outros que já vivi. Em suma, estou feliz com o que faço, não ganhei muito dinheiro, mas ganhei o carinho do público e isso às vezes é muito mais importante. Já pensei em desistir, porque também trabalho na área administrativa, sou um bom administrador, mas o carinho das pessoas permite que ainda faça teatro. As pessoas pedem mesmo para continuar e dizem gostar do que faço.

Esse carinho que recebe das pessoas obriga a dar resposta às necessidades delas?

Vontade temos de dar resposta às inúmeras necessidades que diariamente nos expõem. Por exemplo, na semana passada, fizemos uma série de actividades nas comunidades no âmbito dos 50 anos, com a peça "Ecos da aldeia - Angola 50 anos". Fomos às comunidades apresentar os ganhos da Independência, mas também recebemos daquelas pessoas os seus anseios e problemas. Muitas vezes não sabemos o que responder. As zungueiras que fogem dos fiscais também vêm queixar-se a nós. Às vezes ficamos atados, não sabemos como ajudar. Recentemente vivi um episódio, quando reabilitavam o mercado da Mabunda, as quitandeiras foram à administração reivindicar. Quando me viram, começaram a gritar, "Avô Ngola vem nos defender", como se fosse advogado do povo. Senti que, de facto, a população gosta do que faço e entende a mensagem que transmitimos. Aquela situação levou-me a pensar que tenho uma responsabilidade acrescida.

Até que ponto os actores podem ajudar nas resoluções dos problemas sociais?

Nas actividades em que vamos actuar. Por exemplo, quando somos solicitados por algum ministério para falarmos de um determinado tema, aproveitamos e inserimos as queixas da comunidade. Agora, directamente, nós não temos como. Aproveitamos passar nas peças de teatro as reclamações da população, aquilo que nos tem surgido.

Como avalia o teatro nacional?

Vamos dizer que há várias etapas. Aquela de 1975, depois a Independência, época em que as pessoas faziam teatro de intervenção. Surgiram grupos teatrais nascidos nas fábricas, nas escolas, nas Forças Armadas. Depois progrediu para outros grupos de teatro, a partir de 1992, quando fundamos o grupo JULU. O nosso grupo nasceu com o objectivo de fazer a educação cívica eleitoral através do teatro, em 1992, nas primeiras eleições. Em 1993 surgiram outros grupos. Até que em 1993 ou 1994, começaram a aparecer as noites de teatro às quintas-feiras, com o Manuel Sebastião à cabeça. Aquilo foi, de facto, o boom do teatro em Luanda. Porque tínhamos uma sala boa, o Teatro Avenida. Depois partiram a sala. E a pergunta é, onde vamos fazer teatro de qualidade? Sinto pelos jovens que agora fazem teatro. Depois notamos algum défice na formação de actores. Felizmente, o JULU sempre teve formação. Tivemos a primeira formação em Teatro Comunitário para o Desenvolvimento, assim como a formação sobre Teatro da Rua. Essas formações pequenas ajudaram-nos a melhorar a nossa qualidade de representação.

Agora abriram- se as escolas, do ensino médio e do superior de teatro. E a minha questão é: esses jovens vão actuar onde?

Não há salas para se fazer teatro. Em termos temáticos, estamos bem. Qualidade de imagem, de som, temas, estamos bem. Estão a surgir alguns bons actores. Mas são actores que a gente não consegue classificar ainda muito bem, porque não estão a representar numa sala convencional. Vão se adaptando algumas salas. Logo, podemos dizer que o teatro está a caminhar bem. Já esteve um pouco melhor, depois teve um período estagnado. Agora está a continuar, mas não temos salas.

A antiga casa das leis está ser projectada para Casa das Artes. O que espera?

Será para quem? Vai servir a quem? Quais são os grupos que vão passar lá? Esse é outro desafio. Para quem deseja ser profissional do teatro, qual será a sua rentabilização? Espero que seja mesmo a Catedral do Teatro Angolano. Que sirva, de facto, para os grupos de teatro de Angola. Nesse aspecto, gostaria que o teatro estivesse dividido por classe A, B e C. Porque acredito que na futura Casa das Artes não poderá ir qualquer grupo. Para isso, os grupos têm que estar devidamente classificados.

E quem faz essa classificação?

Para mim, tem que começar a partir da Associação Angolana de Teatro. A associação tem de arranjar um método para definir os grupos por classes. Acho que temos que discutir sobre isso. Criar primeiro um regulamento, os requisitos para que um grupo seja da classe A ou B. Para depois não discutirmos sobre os que passam e não passam naquele que será um local privilegiado. No tempo das noites de quintas de teatro, havia uma comissão de teatro que analisava com rigor os grupos que podiam passar. E penso que se deve fazer o mesmo exercício.

Não há salas para teatro e não há uma produção contínua de novelas e de filmes. Acha que os actores têm a arte como uma segunda opção?

Penso que sim, não há outra hipótese. O actor tem que ver o teatro como uma segunda opção, sobretudo os que optam pelo teatro convencional, o que não é o caso do JULU. Por exemplo, todos os actores do JULU têm o teatro como primeira opção, porque não fazemos muito teatro convencional, de sala. Nós é que vamos ao encontro da comunidade, somos especialistas em teatro comunitário para desenvolvimento. A gente faz teatro de intervenção, teatro de advocacia.

Leia o artigo integral na edição 854 do Expansão, sexta-feira, dia 28 de Novembro de 2025, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

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