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Opinião

Crédito privado e banca | Uma nova arquitetura do financiamento ao setor produtivo em Angola

CONVIDADO

A verdadeira questão é se o país será capaz de o integrar de forma inteligente na sua arquitetura financeira. Porque o futuro do financiamento ao crescimento não será bancário ou não bancário. Será híbrido. A banca garantirá estabilidade. O crédito privado trará capacidade de risco. E juntos poderão financiar o que mais importa: a transformação produtiva da economia angolana.

Angola enfrenta hoje um desafio estrutural que já não é apenas macroeconómico, fiscal ou cambial, é também financeiro. O verdadeiro bloqueio ao crescimento está, cada vez mais, na forma como o financiamento chega, ou não chega, à economia real, e principalmente às PMEs. O país estabilizou, reformou o setor bancário, reforçou a regulação e recuperou solvência. Contudo, o crédito produtivo continua difícil, curto, caro e, sobretudo, insuficiente para sustentar a diversificação económica.

É neste vazio que surge uma nova realidade, o crédito privado. E a verdade que precisa de ser dita com clareza, evitando mal entendidos, é que o crédito privado não é uma ameaça à banca, é antes de mais uma complementaridade ao crédito bancário e uma necessidade estratégica para o crescimento económico.

Durante anos, o sistema bancário angolano foi chamado a cumprir um papel essencial na estabilidade sistémica: estabilizar, reforçar capital, limpar balanços e garantir solidez. Esse processo de reestruturação do sistema bancário angolano iniciado após a instabilidade financeira de 2017 foi bem-sucedido. Hoje, os bancos são mais robustos, mais prudentes, mais resilientes e mais regulados. Mas esse mesmo sucesso, criou uma consequência inevitável, que é a menor capacidade para assumir riscos de longo prazo.

Não se trata de uma falha do sistema bancário. Trata-se, sim, de um efeito natural do sucesso das reformas prudenciais. Foram impostas aos bancos angolanos regras de capital mais exigentes, maior rigor na avaliação de riscos e a aplicação de normas internacionais, que tornaram o crédito mais seletivo. E numa economia como a angolana, com volatilidade histórica elevada, informalidade elevada e fragilidade nas garantias, essa seletividade traduziu-se numa contenção do financiamento ao setor produtivo.

O resultado é conhecido. Em Angola, assim como na quase totalidade da África subsariana, com excepção da África do Sul, o crédito ao setor privado ronda cerca de 25% do PIB, muito abaixo de outras regiões, comparando com os cerca de 55% na América Latina, mais de 90% na Ásia emergente e acima de 140% nas economias avançadas. Não é apenas uma questão de desenvolvimento financeiro, é acima de tudo um desalinhamento entre o modelo bancário tradicional e as necessidades reais das economias africanas, que precisam de financiamento paciente e de médio e longo prazo. Em Angola, essa realidade é ainda mais evidente.

Segundo o BNA e o artigo IV do FMI, os bancos angolanos têm liquidez e solvência adequadas, mas têm também uma aversão, compreensível, ao risco produtivo de longo prazo. Ao mesmo tempo, a estrutura de funding continua assente sobretudo em depósitos de curto prazo, incompatíveis com investimentos industriais, agrícolas ou energéticos que maturam ao longo de anos.

É neste contexto que o crédito privado ganha relevância estratégica. Não como substituto da banca. Mas como complemento funcional ao financiamento ao setor produtivo. Segundo o MSME Finance Gap Report do International Finance Corporation (IFC), o défice de financiamento das PMEs em África ultrapassa os 330 mil milhões USD. Esse número não representa apenas falta de dinheiro. Representa acima de tudo a inadequação dos instrumentos existentes face à realidade das empresas africanas: pouca formalização, escassez de garantias, fluxos de caixa voláteis e dificuldade de acesso a crédito tradicional.

O crédito privado vem responder exatamente a esse problema, mas, ao contrário do crédito bancário, não financia apenas com base em garantias tradicionais, mas introduz outros elementos de avaliação com base na viabilidade económica dos projetos. Usa estruturas mais flexíveis, como financiamento baseado em fluxos de caixa, contratos de fornecimento, desembolsos faseados e instrumentos de financiamento híbridos.

O crédito privado tem permitido financiar projetos de energia, agroindústria, logística e indústria transformadora em vários países africanos e, muitas vezes, projetos que foram recusados pela banca, não por falta de viabilidade económica, mas por não se enquadrarem nos critérios prudenciais bancários. A lição que podemos retirar das várias experiências em África é que há espaço para estes dois modelos de financiamento coexistirem.

A banca continuará a ser o pilar da estabilidade financeira. É insubstituível na intermediação baseada em depósitos, na transmissão da política monetária, na gestão de pagamentos e no crédito padronizado de curto e médio prazo.

O crédito privado, por sua vez, terá um papel diferente. Irá assumir o risco produtivo de longo prazo, estruturar soluções sob medida e financiar setores estratégicos onde a banca, por razões prudenciais, não pode atuar com a mesma flexibilidade. A convivência entre os dois modelos não é apenas possível, ela é desejável.

Num modelo de financiamento híbrido, maduro e profundo, os bancos disponibilizam-se a cofinanciar projetos, estruturar operações em conjunto, originar oportunidades, distribuir produtos e atuar como agentes financeiros. O crédito privado entra onde o risco é maior e a maturidade é mais longa; a banca entra onde a escala, a estabilidade e a padronização são essenciais. Mas essa convivência exige inteligência regulatória.

Sem enquadramento e regulamentação clara, podem surgir zonas de fricção: competição pelos mesmos clientes corporativos, arbitragem regulatória, conflitos na estrutura de garantias e riscos de desintermediação desordenada.

Porém a resposta não deve ser a de travar o crédito privado, mas integrá-lo com regras proporcionais, transparentes e adaptadas à sua natureza.

O Estado não pode nem deve estar alheio a este processo, pois tem aqui um papel determinante, ao criar mecanismos de garantia, melhorar o registo de ativos, promover fundos locais de crédito privado e atrair investidores institucionais. Estes são passos essenciais para reduzir o risco percebido e aumentar o financiamento produtivo.

A partir de 2026, a questão estratégica para Angola deixa de ser se o crédito privado vai crescer, porque ele vai crescer.

A verdadeira questão é se o país será capaz de o integrar de forma inteligente na sua arquitetura financeira. Porque o futuro do financiamento ao crescimento não será bancário ou não bancário. Será híbrido.

A banca garantirá estabilidade. O crédito privado trará capacidade de risco. E juntos poderão financiar o que mais importa: a transformação produtiva da economia angolana.

Se Angola quiser diversificar, industrializar e criar emprego em escala, terá de aceitar uma evidência simples e tecnicamente incontornável: o crescimento sustentado exige mais canais de financiamento do que apenas o sistema bancário. O crédito privado não é uma moda financeira. É uma peça estrutural da próxima fase de desenvolvimento económico.

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