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Opinião

Menos desemprego, mais inactivos melhoria real ou efeito metodológico?

MILAGRE OU MIRAGEM?

Subsistem questões relevantes que exigem clarificação, nomeadamente a existência de mais de 11 milhões de angolanos fora da força de trabalho num contexto de frágil protecção social. Este dado reforça a tese que temos defendido: o aumento da oferta de emprego formal, sobretudo para a juventude, qualificada e não qualificada, não é apenas uma prioridade económica, mas uma necessidade social que hoje acreditamos ser politicamente incontornável.

Na semana passada foi destaque, também no Expansão, o impacto da mudança metodológica introduzida pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) no Inquérito sobre Emprego em Angola (IEA). A Folha de Informação Rápida (FIR) referente ao IV trimestre de 2025 passou a incorporar as mais recentes recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o que produziu alterações significativas nos principais indicadores do mercado de trabalho.

Como resultado dessas mudanças, a taxa de desemprego geral caiu 6,8 pontos percentuais, passando de 26,9% no III trimestre de 2025 para 20,1% no IV trimestre. O desemprego juvenil (15-24 anos) registou igualmente uma redução expressiva de 5,4 pontos percentuais, descendo de 48,7% para 43,3% no mesmo período. Um dado relevante que deixou de constar na FIR do IV trimestre foi a taxa de actividade, indicador que mede a proporção da população em idade activa (15 ou mais anos) que se encontra economicamente activa, isto é, empregada ou desempregada à procura de trabalho. No III trimestre, essa taxa situava-se num nível muito elevado: 88,1%. Em termos simples, quase 9 em cada 10 pessoas em idade de trabalhar estavam inseridas no mercado de trabalho.

Tal realidade é consistente com o contexto angolano, onde a ausência de um sistema de protecção social robusto limita a possibilidade de permanência fora da actividade económica. Contudo, segundo os dados do INE, no IV trimestre de 2025 cerca de 11.312.501 angolanos passaram a estar fora da força de trabalho. Ou seja, mais de 11 milhões de pessoas "não exerceram qualquer actividade remunerada nem outro tipo de trabalho, não estavam disponíveis para trabalhar e não estavam activamente à procura de emprego".

A questão que se impõe é evidente: como sobrevivem estes cidadãos num contexto de baixa cobertura de transferências sociais? Trata-se de um ponto que merece esclarecimento adicional por parte do INE, sob pena de gerar dúvidas sobre a interpretação dos dados. As alterações metodológicas tiveram também impacto no Índice de Sofrimento Económico que temos apresentado neste espaço.

O Gráfico 1 mostra que o indicador se encontra em queda desde o II trimestre de 2024, quando atingiu um máximo de 63,3%. Entre o IV trimestre de 2024 e o IV trimestre de 2025 registou-se uma redução acumulada de 22,1 pontos percentuais. Até ao III trimestre de 2025, a diminuição era de 15,6 pontos percentuais face a 2024; o IV trimestre acrescentou uma queda adicional de 6,5 pontos, fortemente influenciada pela revisão metodológica.

No caso da juventude (15-24 anos), o sofrimento económico permanece elevado, apesar da redução observada ao longo dos últimos 12 meses. Entre o IV trimestre de 2024 e o IV trimestre de 2025 verificou-se uma diminuição de 22,9 pontos percentuais (cf. Gráfico 2). Até ao III trimestre, a redução acumulada era de 19,6 pontos; o IV trimestre contribuiu com uma descida adicional de 3,3 pontos percentuais. A análise por género confirma que o sofrimento económico continua a afectar homens e mulheres de forma distinta (cf. Gráfico 3). Entre o IV trimestre de 2024 e o IV trimestre de 2025, o indicador caiu 21,9 pontos percentuais para os homens e 22,1 pontos percentuais para as mulheres. Ainda assim, o diferencial de género reduziu-se apenas marginalmente, passando de 3,9 pontos percentuais para 3,7 pontos percentuais.

Quanto à zona de residência, o Gráfico 4 evidencia uma convergência entre áreas urbanas e rurais. Até ao III trimestre de 2025, o sofrimento económico era inferior nas zonas rurais, com um diferencial urbano- -rural de 13,7 pontos percentuais. A mudança metodológica conduziu a uma redução mais acentuada do sofrimento urbano, anulando a vantagem relativa anteriormente observada no meio rural. Em suma, a actualização metodológica é positiva e alinha as estatísticas nacionais com os padrões internacionais.

Contudo, subsistem questões relevantes que exigem clarificação, nomeadamente a existência de mais de 11 milhões de angolanos fora da força de trabalho num contexto de frágil protecção social. Este dado reforça a tese que temos defendido: o aumento da oferta de emprego formal, sobretudo para a juventude, qualificada e não qualificada, não é apenas uma prioridade económica, mas uma necessidade social que hoje acreditamos ser politicamente incontornável.

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