A relação da mulher com o dinheiro: Entre preconceitos, realidade e futuro
Valorizar a relação da mulher com o dinheiro é reconhecer a sua capacidade de gestão, o seu sentido de responsabilidade e a sua visão de futuro. O dinheiro, quando administrado pela mulher, ultrapassa a dimensão material e transforma-se num instrumento de organização familiar, solidariedade social e progresso económico.
Falar da relação da mulher com o dinheiro é abordar um dos domínios onde os preconceitos sociais ainda se manifestam de forma mais subtil, porém persistente. Lamentavelmente, como em tantas outras situações e contextos, a mulher continua a ser alvo de julgamentos quando o tema é dinheiro.
Se demonstra interesse em estabilidade financeira, é rapidamente rotulada de interesseira. Se aceita ajuda do companheiro, questiona-se a sua intenção. Se, por outro lado, insiste em pagar metade da conta ou em assumir responsabilidades financeiras, ouve-se o comentário: "Tu não és como as outras". E, muitas vezes, a mulher sorri, orgulhosa, acreditando que essa distinção é um elogio, quando, na verdade, reforça estereótipos profundamente enraizados.
Nesta lógica, os homens tendem a dividir as mulheres entre "interesseiras" e "não interesseiras", enquanto as próprias mulheres, pressionadas por essa narrativa social, acabam por se dividir entre "sérias" e "aproveitadoras".
Os homens, esses, permanecem quase sempre fora do julgamento. São vistos como provedores naturais, gestores competentes, investidores natos e pilares financeiros da família. Diz-se que sabem poupar melhor, decidir melhor e arriscar melhor. Diz-se. Contudo, a realidade observada no quotidiano e em contexto profissional, nomeadamente em consultório e em estudos sociais, revela um cenário bastante diferente. Em muitos lares angolanos, são as mulheres que trabalham fora e dentro de casa, acumulando jornadas, ganhando menos ou até mais do que os companheiros, mas assumindo, ainda assim, a maior parte dos encargos familiares. São elas que garantem a alimentação, o pagamento das propinas, a saúde dos filhos, a organização das despesas domésticas e o cuidado com familiares próximos.
Muitas vezes, fazem-no sacrificando a sua própria poupança, os seus projectos pessoais e a sua segurança financeira futura, simplesmente porque não conseguem assistir à privação dos filhos ou da família. Persistem também situações em que as mulheres pensam em adquirir casa própria ou investir num pequeno negócio familiar, enquanto os homens optam por investir com irmãos ou terceiros, colocando bens em nome de outras pessoas, normalmente da mãe, deixando a mulher sem qualquer salvaguarda patrimonial. Esta realidade, embora desconfortável, é frequente e precisa ser discutida sem tabus. Importa ainda sublinhar que a violência doméstica não se limita à agressão física ou psicológica.
Existe a violência patrimonial, caracterizada pela privação ou controlo do acesso da mulher ao dinheiro, configurando uma forma clara de controlo coercivo. Retirar autonomia financeira à mulher é uma maneira eficaz de limitar a sua liberdade e capacidade de decisão.
Perante este cenário, impõe-se uma pergunta essencial: se as mulheres não fossem sobrecarregadas com tantos encargos e se tivessem igualdade de condições, não demonstrariam, de forma ainda mais clara, a sua competência na gestão financeira? A experiência demonstra que sim. Historicamente, a mulher enfrentou maiores dificuldades de acesso aos recursos financeiros, seja pela desigualdade salarial em relação ao homem, pela ocupação de postos de trabalho mais precários ou pelas barreiras culturais que a colocaram, durante décadas, num papel de dependência económica. Mesmo em pleno século XXI, continuam a existir mais homens milionários do que mulheres, e são elas que, após divórcios ou separações, tendem a enfrentar com maior rapidez situações de instabilidade financeira.
Ainda assim, paradoxalmente, quando o dinheiro é administrado pelas mulheres, o impacto tende a ser positivo e estruturante. Em Angola, como em muitas partes do mundo, são as mulheres que, mesmo com rendimentos mais baixos, asseguram a sobrevivência e a estabilidade do agregado familiar. Essa capacidade de gerir o pouco que se tem, equilibrando necessidades, prioridades e imprevistos, demonstra uma força notável na administração financeira.
O uso racional do dinheiro pelas mulheres é, por isso, uma característica marcante. Embora sejam frequentemente vistas como menos ousadas e mais avessas ao risco, essa postura revela-se, em muitos casos, uma vantagem. Estudos indicam que empresas lideradas por mulheres tendem a ser mais sustentáveis e financeiramente equilibradas, justamente porque a prudência, a disciplina e a visão de longo prazo orientam as suas decisões. Se, por um lado, os homens demonstram maior confiança e assumem riscos elevados, por outro, as mulheres evidenciam rigor, planeamento e uma abordagem preventiva, tornando-se menos propensas a falências e erros graves de gestão.
O impacto positivo da mulher na gestão financeira ultrapassa largamente o espaço doméstico. Quando as mulheres têm acesso a oportunidades económicas, educação financeira e recursos para investir, os benefícios reflectem- -se em toda a sociedade. Mulheres financeiramente independentes contribuem para a redução da pobreza, para o fortalecimento da economia nacional e para a promoção de uma sociedade mais justa e equilibrada.
Não é por acaso que vários organismos internacionais defendem que investir na mulher é investir no desenvolvimento sustentável. Todavia, os desafios persistem, sendo a falta de literacia financeira um dos principais entraves. Muitas mulheres não poupam nem investem de forma estruturada por ausência de informação, por medo ou simplesmente porque nunca lhes foi dada a oportunidade de aprender a lidar com instrumentos financeiros. Torna-se, por isso, urgente a criação de programas de educação financeira direccionados para mulheres, que promovam o conhecimento, a autonomia e a confiança na tomada de decisões económicas. Mas a mudança não depende apenas do Estado ou das instituições. As próprias mulheres têm um papel determinante neste processo.
É fundamental que interiorizem que têm direito ao dinheiro, à autonomia financeira e à segurança económica. É recomendável que tenham uma conta poupança pessoal, onde possam reservar, mensalmente, uma parte dos seus rendimentos antes de qualquer outro gasto. É igualmente importante que se preocupem em adquirir bens em seu nome, não por desconfiança, mas por prudência e responsabilidade consigo próprias. A sociedade angolana deve apostar, de forma clara e decidida, nas mulheres. Valorizar a relação da mulher com o dinheiro é reconhecer a sua capacidade de gestão, o seu sentido de responsabilidade e a sua visão de futuro.
O dinheiro, quando administrado pela mulher, ultrapassa a dimensão material e transforma-se num instrumento de organização familiar, solidariedade social e progresso económico. O futuro de Angola será, sem dúvida, mais promissor se for construído com mulheres financeiramente empoderadas, informadas e independentes, capazes de gerir recursos com equilíbrio, prudência e visão estratégica. Nesse caminho, ganham as famílias, ganha a economia e ganha o país.
*António Feliciano Braça, economista e Fátima Sampaio Fernandes, Psicóloga da Saúde










