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Análise

Angola nos mercados internacionais: Da crise de 2014 à recuperação internacional

EM ANÁLISE

Desenvolvimentos recentes, como a melhoria das condições de financiamento soberano, a reabertura de canais financeiros internacionais e a estabilização de vários indicadores macroeconómicos, apontam para um novo enquadramento do risco em Angola, num trajecto encorajador, mas ainda insuficiente.

Após o choque petrolífero de 2014, a economia angolana enfrentou um momento decisivo. A queda abrupta das receitas, associada à deterioração das contas externas e à perda de relações de correspondência bancária em dólares norte-americanos, colocou o país numa posição de elevada vulnerabilidade financeira. Nos anos subsequentes, Angola passou a ser amplamente percepcionada pelos mercados internacionais como uma jurisdição de risco elevado.

Desde então, o país tem procurado reconstruir gradualmente a sua credibilidade macroeconómica e financeira. Desenvolvimentos recentes, como a melhoria das condições de financiamento soberano, a reabertura de canais financeiros internacionais e a estabilização de vários indicadores macroeconómicos, apontam para um novo enquadramento do risco em Angola. Apesar dos progressos já alcançados, muitos dos quais começam a produzir resultados visíveis nos indicadores macroeconómicos e financeiros, subsistem vulnerabilidades estruturais, designadamente a dependência do sector petrolífero, a exposição a choques externos e a necessidade de implementar reformas estruturais, institucionais e de mercado.

Restabelecimento das relações de correspondência e reintegração no sistema financeiro internacional

Um dos desenvolvimentos mais relevantes no recente processo de normalização financeira foi o restabelecimento das relações de correspondência bancária em dólares norte-americanos. Em Dezembro de 2015, Angola perdeu o acesso directo ao sistema internacional de compensação em dólares, após vários bancos internacionais terem cessado as suas relações de correspondência com instituições financeiras angolanas.

A saída do Deutsche Bank, o último banco a assegurar esse acesso, obrigou o sistema bancário nacional a recorrer a estruturas indirectas para a liquidação de pagamentos em USD. De acordo com o relatório do Fundo Monetário Internacional de 2016, esta retirada resultou de um conjunto de factores, nomea damente "o reforço das exigências regulamentares internacionais, a reavaliação do apetite ao risco por parte dos bancos internacionais, o maior escrutínio em matéria de prevenção do branqueamento de capitais e combate ao financia mento do terrorismo, bem como a percepção de Angola como uma jurisdição de risco elevado".

Nos últimos anos, contudo, começaram a surgir sinais de inversão desta tendência. Em Outubro de 2025, o J.P. Morgan tornou-se o primeiro banco norte-americano, em quase uma década, a retomar serviços de dollar clearing em Angola, permitindo que bancos angolanos voltem a liquidar pagamentos internacionais em dólares directamente através do sistema financeiro americano.

Pouco depois, o Deutsche Bank restabeleceu igualmente relações de correspondência, abrindo contas em dólares junto de instituições financeiras angolanas, reforçando assim os canais internacionais de liquidação e a integração do país no sistema financeiro global. A recuperação do acesso directo ao circuito de liquidação em dólares reduz custos e fricções operacionais no comércio externo, mas constitui, sobretudo, um sinal objectivo de reforço institucional e de alinhamento com os padrões internacionais de supervisão e governação financeira....

*FREDERICO LOURENÇO, Director de Tesouraria e Mercados Financeiros do Access Bank Angola

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