Especialistas antecipam último Estado da Nação focado em vitórias e num país real esquecido
Com o fim do mandato à vista, antevê-se uma intervenção focada na narrativa das vitórias governativas, em detrimento dos fracassos estruturais. À semelhança de anos anteriores, o grande desafio do país continua por encurtar a distância entre as metas do Executivo e as dificuldades do "país real".
A melhoria do quadro macroeconómico do País e a forte desaceleração da inflação, em contraciclo com o mundo, deverão ser dos principais temas que o Presidente da República vai levar ao Parlamento, naquele que será o seu último discurso à Nação. No fundo, esperam-se mais abordagens sobre as vitórias da sua governação do que propriamente as derrotas, num discurso onde se espera um balanço sobre quase 10 anos de governação. Aquele que será o 10.º discurso sobre o Estado da Nação do Presidente da República, que vai marcar a abertura do ano legislativo 2025/2026, no próximo dia 15, na Assembleia Nacional, está a ser aguardado com bastante expectativa.
O Expansão consultou várias personalidades do País sobre as expectativas que têm para aquele que será o último Estado da Nação com João Lourenço na presidência, e a maior parte acredita que seria importante voltar a colocar questões como a corrupção, a fome e o desemprego em cima da mesa, já que foram temas que o Presidente abordou nos seus primeiros discursos, mas que com o passar dos anos foram desaparecendo do Estado da Nação.
O coordenador do Observatório Eleitoral Angolano (OBEA), Luís Jimbo, entende que estes temas não vão voltar a fazer parte da agenda do discurso do Presidente da República por ser precisamente a sua última comunicação, e não é por eles que quer ser lembrado.
"Não acredito que ele venha a tocar profundamente nas questões sociais, como o emprego, pobreza. Se tocar vai cingir-se apenas àqueles programas como o Kwenda. Também não acredito que vá tocar no seu programa de combate à corrupção para não criar fraturas dentro da cúpula do MPLA numa altura em que se projectam as eleições gerais do próximo ano", disse.
O responsável é de opinião que o discurso à Nação irá focar as atenções nas principais realizações do seu mandato no que toca à construção de infraestruturas no sector da saúde, nomeadamente hospitais, mas também no sector energético e de transportes. "Penso que o PR vai também tocar naquilo que esteve muito bem na projeção da diplomacia angolana nos assuntos de paz e segurança, não só enquanto presidente da União Africana e enquanto medianeiro de paz, mas também como líder da AUDA-NEPAD".
Jimbo considera que o Presidente deveria esclarecer a questão sempre adiada das autarquias, porque havia prometido, até porque no seu primeiro discurso sobre o Estado da Nação, prometeu realizar eleições autárquicas durante o seu primeiro mandato, tendo chegado mesmo a anunciar o ano de 2020. Por isso, Luís Jimbo defende a possibilidade de que as autarquias sejam realizadas em simultâneo com as próximas eleições gerais, por ser esta uma recomendação que tem vindo a ser cada vez mais reiterada a nível de África.
Balanço macroeconómico
Por outro lado, o economista Gaspar João diz que é muito provável que a estratégia esteja assente numa declaração política de balanço macroeconómico e de definição de legado, e não propriamente num anúncio de novas políticas de grande envergadura.
É previsível, no seu ponto de vista, que sejam avançados dados relativos à estabilização cambial, ainda que este aparente sucesso resulte de uma gestão administrativa do BNA. Aguarda também informação sobre a reforma fiscal durante a era João Lourenço e, de forma muito particular, sobre o abrandamento da inflação, a par do crescimento do sector não petrolífero e das projecções do PIB para 2026.
No plano social e em relação à fome, é previsível que o discurso de João Lourenço inclua uma forte tónica nos resultados dos programas de transferência de rendimentos, com particular realce para o impacto do programa Kwenda. E considera que dificilmente o Presidente da República poderá deixar de apresentar dados concretos sobre a diversificação da economia...











