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Angola

Mineração ilegal de criptomoedas cresce à custa da rede eléctrica nacional

INDÚSTRIA ILEGAL ORGANIZADA INTERNAMENTE E COM LIGAÇÕES INTERNACIONAIS

De forma simples, a mineração ilícita de criptomoedas é a transformação de electricidade em dólares depositados no exterior. As condições particulares do País são particularmente atractivas para este negócio, o que explica o crescimento desta indústria ilegal no nosso território. As apreensões sucedem-se.

O desmantelamento esta semana, pelo SIC, de um estaleiro de grandes dimensões no Ramiros (Belas), equipado para mineração ilícita de criptomoedas, com mais de 2.000 processadores e um posto de transformação de elevada capacidade ligado à rede pública, confirma que a actividade continua a organizar-se em escala industrial. Dez suspeitos foram detidos em flagrante - dois chineses e oito angolanos - num caso que volta a expor o mesmo padrão: hardware importado, instalação camuflada e a energia como "matéria-prima" mais cobiçada.

Com o Bitcoin a rondar 68 mil dólares, a rentabilidade potencial de um centro desta dimensão pode atingir centenas de milhares de dólares por mês, dependendo do tipo de máquinas e, sobretudo, de como é obtida a electricidade. Em pouco mais de dois anos, Angola passou de casos isolados para um combate sistemático contra uma actividade que ganhou escala industrial. Desde a entrada em vigor da Lei n.º 3/24, de 10 de Abril, que proibiu e criminalizou a mineração de criptomoedas e outros activos virtuais, as autoridades intensificaram operações que revelam uma realidade preocupante: o País tornou- -se um terreno fértil para uma indústria clandestina altamente consumidora de energia e com capacidade logística significativa.

O caso agora detectado no Ramiros, nas imediações do Museu da Escravatura, funciona como fotografia actual do fenómeno: um estaleiro já em fase de equipamento, com mais de 2.000 processadores específicos e um PT de elevada capacidade ligado ao sistema público, além de uma equipa operacional apanhada no terreno - dois cidadãos chineses e oito angolanos - envolvidos na movimentação e preparação do material. A mensagem é dupla, a actividade continua a captar financiamento e organização técnica, e, ao mesmo tempo, recruta logística local para montar e manter a operação.

Rendimentos elevados

Dois mil processadores não são "um esquema doméstico", são um projecto de natureza industrial, pensado para operar continuamente, com exigências de potência, refrigeração e estabilidade eléctrica equivalentes às de uma pequena unidade fabril. Usando parâmetros públicos do protocolo e a dimensão actual da rede, a receita total diária distribuída aos mineradores é, em termos de ordem de grandeza, função do preço do Bitcoin e da recompensa por bloco (3,125 BTC pós-halving) face ao hashrate global. Com o Bitcoin em torno de 68 mil USD e o hashrate da rede perto de 1,095 mil milhões de TH/s, obtém-se uma referência aproximada de 0,028 USD por TH por dia (sem contar com taxas).

Se os 2.000 processadores forem de geração recente (por exemplo, máquinas na ordem dos 200 TH/s cada), o centro pode somar cerca de 400.000 TH/s, o que, por esta aproximação, dá algo como 11 mil USD/dia de receita bruta - perto de 330 mil USD/mês, quase 4 milhões USD/ano. A parte decisiva, contudo, é a energia. Duas mil máquinas desta categoria podem exigir perto de 7 MW contínuos, um consumo capaz de pressionar transformadores e redes lo cais. Se a energia for paga a preço realista, a margem encolhe, se for desviada ou subfacturada, a margem explode.

O fenómeno não é novo. O primeiro sinal mais estruturado surgiu ainda antes da lei, a 11 de Dezembro de 2023, quando o SIC desmantelou, em Catete (Luanda), um estaleiro com processadores dedicados à mineração e deteve três cidadãos chineses.

No entanto, os acontecimentos seguintes mostrariam que se tratava apenas da ponta do icebergue. Em 2025, a dimensão industrial tornou-se incontornável, o SIC apreendeu oito contentores de 40 pés com equipamento destinado à mineração no Kilamba, e as autoridades reportaram uma sequência que elevava para 41 estaleiros desmantelados em 10 meses, com pelo menos 100 detidos, maioritariamente chineses...

Leia o artigo integral na edição 864 do Expansão, sexta-feira, dia 20 de Fevereiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

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