Trabalhadores ficam só com 19,4% da riqueza criada em Angola
O baixo peso dos salários no PIB e a baixa poupança, que está em mínimos históricos, são reflexo de um País desigual, em que a massa salarial é insuficiente para sustentar o consumo interno. Empresas estão a empurrar os lucros para os accionistas e para a dívida pública.
Os trabalhadores angolanos ficaram apenas com 19,38% da riqueza criada no País em 2025, tratando-se do terceiro pior registo desde 2002, um dado que sugere a perda de poder de compra ao longo dos anos e a prevalência da desigualdade num cenário de alta inflação, desemprego, salários baixos e informalidade da economia, que contrasta com a riqueza gerada pelo petróleo.
De acordo com os dados das Contas Nacionais Anuais preliminares publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) esta semana, a riqueza gerada no país chega pouco aos trabalhadores e está a ficar retida no capital, ou seja, nas empresas. O Excedente Operacional Bruto/PIB (inclui lucros, rendas e juros) em 2025 foi de 79,98%. Números mais altos só mesmo em 2005 e 2006, com 80,80% e 80,03%, respectivamente. Significa que nos últimos 20 anos, nunca o capital ficou com uma fatia tão grande da riqueza criada no País como aconteceu no ano passado. Esta apropriação do valor acrescentado pelo capital evidencia concentração de renda e lucros em períodos de baixo crescimento de emprego e salários.
O PIB pode ser analisado consoantes três ópticas: a da produção, que é o somatório dos valores acrescentados brutos de todos os sectores da economia; a do rendimento, somando todas as remunerações obtidas pelos agentes económicos, desde os salários aos lucros e aos juros; e a das despesas, que é o resultado do somatório do consumo das famílias, dos gastos públicos, dos investimentos e das exportações, deduzindo as importações.
Nos últimos 10 anos, o PIB nacional apresentou um crescimento médio abaixo de 1,0%, muito abaixo do crescimento médio anual da população que ronda os 3,5%. Como a economia não conseguiu criar os postos de trabalho formais necessários para acompanhar o crescimento da população, a porta de saída da maior parte das famílias angolanas acaba por ser a informalidade (cerca de 80% dos empregos são informais).
A alta inflação e o ambiente de negócios inibem o investimento pelo que o desemprego também é elevado. Assim, cumprindo a lógica de mercado, em que há mais procura do que oferta de empregos, impera uma política de baixos salários que impedem não só a saída da pobreza para a maioria da população, mas também uma fraca poupança...











