Esperança | O pior dos males
Entre as várias emoções positivas, a Psicologia Positiva considera que a esperança é uma das mais importantes, constituindo uma força de carácter essencial, especialmente em momentos de sofrimento e aflição. Friedrich Nietzsche, no entanto, cerca de um século antes, definiria a esperança nestes termos: "A esperança, na realidade, é o pior dos males, pois prolonga o tormento do homem".
O mito da Caixa de Pandora diz-nos que Pandora, curiosa, abriu a caixa que Zeus lhe oferecera, libertando todos os males do mundo, restando apenas a esperança no fundo da caixa, como antídoto contra todos os males. Ou pelo menos consolo. Por seu lado, Friedrich Nietzsche (1844-1900) como que exclama: "Hello! A caixa continha todos os males do mundo! Todos os males do mundo, incluindo a esperança - o pior de todos eles!".
É secular a nossa crença de que a esperança é uma força do bem. O cristianismo apresenta a esperança como um poder do Espírito Santo e associa-a à promessa da vida eterna. Martin Seligman, ex- -presidente da Associação Americana de Psicologia, no final do século passado, desenvolveu, com Christopher Peterson, a Psicologia Positiva, que tem tido um impacto enorme sobre a psicologia - e o coaching - dos dias de hoje.
A Psicologia Positiva concentra-se nas forças e virtudes humanas, em vez de se focar apenas no sofrimento, como o faz a psicologia tradicional. Seligman apresentou o modelo PERMA, que explica que a estrutura do bem-estar e da felicidade se baseia em cinco pilares: as emoções positivas (positive emotions); o foco total (engagement); as relações saudáveis (relationships); o propósito ou sentido (meaning); e a realização (accomplishment).
De entre as várias emoções positivas, a Psicologia Positiva considera que a esperança é uma das mais importantes, constituindo uma força de carácter essencial, especialmente em momentos de sofrimento e aflição, permitindo encontrar alento, permitindo uma recuperação mais rápida, e até o desenvolvimento de estratégias e soluções.
Friedrich Nietzsche, no entanto, cerca de um século antes de Seligman, definiria a esperança, em Humano Demasiado Humano (1878), nestes termos: "A esperança, na realidade, é o pior dos males, pois prolonga o tormento do homem".
Um experimento extremamente controverso e cruel, com ratos, comprova isso mesmo: a esperança como motor para a continuidade do sofrimento. Refiro-me ao experimento de 1950, do psicobiólogo Curt Richter. No experimento de Richter, ratos eram colocados num recipiente de água sem saída (cada rato no seu recipiente). Depois de 15 minutos, os ratos desistiam de nadar e afundavam. No entanto, se os ratos fossem retirados do recipiente pouco antes de se afogarem, se fossem secos, e depois colocados de novo no recipiente, eles aprendiam que a salvação era possível. Nesses casos, após terem sido resgatados uma vez, os ratos resistiam por 60 a 81 horas! Mais de 60 horas a nadar, ininterruptamente, na esperança de serem resgatados! Mais de dois dias seguidos a nadar, sem parar; para alguns, mais de três dias seguidos.
Claro que a minha leitura de que o experimento é uma prova de que a esperança leva ao prolongamento do sofrimento não é a única leitura possível. Uma outra leitura - muito mais comum - é a de que a esperança é tão poderosa que consegue impulsionar o indivíduo a ir muito além das suas capacidades, e a conseguir sobreviver mesmo em condições desesperadoras.
E por falar em desespero, estamos na Semana do Holocausto. Dia 27 de Janeiro é o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto. No dia 27 de Janeiro de 1945 teve lugar a libertação do campo de concentração nazi de Auschwitz-Birkenau. Neste momento, nos cinemas, está a passar o filme Nuremberga, sobre a relação de um psiquiatra com Hermann Göring, braço direito de Hitler, por altura do famoso julgamento de líderes nazis por crimes contra a humanidade (vi o filme no sábado passado e vou ver de novo este sábado).
Ainda sobre o Holocausto, há uma questão que se impõe logo no início do livro Treblinka - a revolta de um campo de extermínio (1973), de Jean- -François Steiner: Como é que os nazis conseguiram levar a cabo o projecto de extinção de um povo? A resposta? Usando a esperança contra esse povo! Vejamos alguns excertos do livro: "- (...) Todos os que levaram para lá foram exterminados. E todos o seremos também! Seremos todos chacinados!
Surpreendido pela própria violência, o médico calou-se. Então a boca do velho abriu-se e articulou num tom mimado, como uma criança: - Não é verdade. O dr. Ginsberg olhou-o, absorto. Afinal, percebera tudo desde o princípio; afinal, havia compreendido logo, talvez até mesmo antes da transferência para o «ghetto». Mas a verdade era demasiadamente horrível para ele, para a sua idade, e decidira representar a comédia da esperança".
O médico, em seguida, encontra um advogado, seu antigo colega, que também se recusa a acreditar no extermínio dos judeus: "Primeiro o velho, depois o seu antigo colega, tinham-no feito compreender, cada um a seu modo e por motivos completamente diversos, que não era a verdade que mais importava, mas a esperança".
A obra explica a manipulação psicológica feita pelos nazis: ofereciam sempre a esperança. A esperança de escolher a fila certa e, assim, sobreviver; de conseguir o certificado de trabalho e, assim, não ser deportado; depois, de conseguir o certificado branco; depois, o certificado de operário especializado e, assim, não ser morto; depois, o certificado amarelo; depois, o certificado cor-de-rosa familiar. A esperança de não ser gaseado, se até lhes tinha sido entregue um número, que deveriam memorizar, para poderem encontrar as suas roupas e sapatos depois do banho...
Interpretação do tema no contexto corporativo? Bem, a esperança pode tornar o trabalho mais leve. Outras vezes, esperar que as coisas mudem pode ser uma forma de prolongar o sofrimento.
Conclusão? Na minha opinião, a esperança é uma ferramenta que deve ser usada com muita consciência e cautela.











