As ferramentas mais antigas do mundo
Arqueólogos anunciaram a descoberta do que crêem ser o exemplo mais antigo da utilização de ferramentas de pedra por um antepassado humano.
Trata-se de exemplares 700 mil anos mais antigos que qualquer outra ferramenta pré-histórica encontrada até agora, ou seja, datando de há 3,3 milhões de anos.
Meio milhão de anos antes de o nosso género, Homo, aparecer na Terra, já existiam ferramentas. Esta impactante descoberta foi anunciada durante a recente reunião anual da Sociedade Paleontológica norte-americana, na Califórnia, depois de se terem descoberto no Quénia ferramentas de pedra que datam de há 3,3 milhões de anos.
Desde a descoberta do pequeno 'humano habilidoso', em 1960, pelo famoso par de paleoantropólogos Louis e Mary Leakey, o género humano desfrutou da exclusividade de ser o único de todo o reino animal a criar artefactos.
A esse hominídeo chamaram-lhe Homo habilis, por estar associado às ferramentas de pedra que já vinham a estudar desde há anos. Agora, um grupo de arqueólogos descobriu ferramentas líticas com 3,3 milhões de anos, altura em que ainda não existiam os humanos, pois o género Homo apareceu há apenas 2,8 milhões de anos.
É provável que tenham sido fabricadas por membros do género Kenyanthropus platyops ou Australopithecus (como 'Lucy', o primeiro fóssil de Australopithecus afarensis, descoberto em 1974).
Em 2003, foram encontradas no Grande Vale do Rift, na Etió- pia, as ferramentas de pedra mais antigas até então descobertas. Datavam de há 2,6 milhões de anos e foram desenterradas em Gona, na Etiópia. Eram também desta época as primeiras evidências do uso de ferramentas para abater animais, graças a ossos com marcas de corte encontradas em Bouri, no mesmo país, e foram atribuídas à tecnologia conhecida como 'Olduvayense'.
Entre há 2,6 e 1,7 milhões de anos, esta indústria primitiva estendeu-se pelo Leste e Sul de África, e há aproximadamente 1,8 milhões de anos, as primeiras populações do Homo levaram-nas consigo para a Europa.
Graças à nova descoberta realizada pela arqueóloga Sonia Harmand e sua equipa da Universidade Stony Brook, em Nova Iorque, EUA, agora tem-se o registo de ferramentas muito mais antigas e diferentes dessas, as quais foram classificadas como 'tecnologia Lomekwiana', dado que são demasiado antigas e bastante diferentes das ferramentas de Olduvay para representarem a mesma tecnologia.
Alguns pesquisadores trabalhando na Etiópia haviam descoberto ossos de animais, de 3,4 milhões de anos, que continham marcas de cortes. Essa descoberta levantou a suspeita de que os australopitecos estariam a utilizar ferramentas para caçar ou extrair a carne desses animais; porém, sem nenhuma descoberta ou indícios dessas ferramentas, esse caso permaneceu em aberto. Agora, com esse novo achado, volta a discussão.
Novas escavações foram feitas no local, sendo mais de 130 peças descobertas até agora. A arqueóloga Sonia Harmand afirma que as ferramentas foram produzidas intencionalmente, por lascamento, e que não seriam fruto de algum processo natural de fractura de rochas.
A descoberta foi feita na costa oeste do lago Turkana, no Quénia, a uns 1.000 quilómetros da Garganta de Olduvai, região famosa por ali se ter encontrado grande quantidade de fósseis de hominídeos e artefactos.
Não fomos os primeiros
Isso levanta uma nova discussão sobre se essas ferramentas teriam sido construídas pelo Kenyanthropus ou por australopitecos semelhantes à 'Lucy'.
De qualquer forma, é certo que a fabricação de ferramentas começou antes da origem do género Homo. Determinar a idade das ferramentas encontradas é quase impossível, mas Harmand usou as inversões no campo magnético da Terra gravadas nos sedimentos para datar essas ferramentas enterradas há 3,3 milhões de anos.
A data é anterior em meio milhão de anos aos mais antigos representantes do género Homo conhecidos, sugerindo que as ferramentas teriam sido produzidas por australopitecos, tais como a famosa 'Lucy', que viveu 100 mil anos mais tarde. Segundo o estudo, as ferramentas, provavelmente, não seriam usadas pelos hominídeos para caçar, mas para se aproveitarem de restos deixados por predadores.
Ainda assim, o consumo de carne e o uso de ferramentas são dois passos decisivos no caminho do desenvolvimento humano. Além de representar grandes mudanças na interacção com a Natureza, permitindo explorar novos territórios e comer outros alimentos, o uso de ferramentas é acompanhado da sua fabricação - "hábito precursor de tecnologias tão avançadas quanto aviões, aparelhos de ressonância magnética e iPhones", lembra o paleoantropólogo Zeresenay Alemseged, da Academia de Ciências da Califórnia.
Toda a comunidade internacional aplaudiu esta investigação, tanto antropólogos como Alison Brooks, da Universidade de Washington, que afirma estar de acordo com que estas ferramentas são demasiado antigas para serem feitas pelo género Homo, como Alemseged, que liderou a equipa que encontrou marcas de corte em ossos de animais com 3,4 milhões de anos em 2010 em Dikika (Etiópia).
Marcas lineares nesses ossos foram atribuídas às ferramentas de pedra, mas sem exemplos directos de tais ferramentas pelo menos até 700 mil anos depois, a maioria dos antropólogos estava céptica.










