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Não me cumprimentou, não trabalho com ela!

EM ANÁLISE

É tão importante cumprimentar, que é possível encontrarmos pessoas que se recusam a trabalhar com alguém porque essa pessoa passou por ela e não a cumprimentou. E ouvir alguém a dizer, ofendida e até muito zangada, que não vai trabalhar com determinada pessoa por esta não a ter cumprimentado é bastante frequente.

Cumprimentar é um acto cheio de significado, imbuído de conceitos de respeito, educação, senso de comunidade, hierarquia social. É como uma cola ou linha, mantendo as pessoas ligadas e os relacionamentos no lugar, na complexa tapeçaria social. Não cumprimentar é ver a linha a sair, o tecido a descoser-se, o papel a descolar-se.

É tão importante cumprimentar, que é possível encontrarmos pessoas que se recusam a trabalhar com alguém porque essa pessoa passou por ela e não a cumprimentou. E ouvir alguém a dizer, ofendida e até muito zangada, que não vai trabalhar com determinada pessoa por esta não a ter cumprimentado é bastante frequente.

No local de trabalho, cumprimentamos as pessoas quando entramos no elevador, no open space, na copa, na casa de banho. Cumprimentamos como se disséssemos às pessoas: "Eu vejo-te! Tu és importante!". No entanto, há pessoas que passam pelas outras e não as cumprimentam.

Lamentavelmente, eu sou uma dessas pessoas, e não é de propósito. Perceber que passei por conhecidos e que não os cumprimentei causa-me bastante angústia, principalmente quando percebo que as pessoas se sentiram ofendidas. Quando eu era adolescente, as minhas irmãs passavam por mim, na escola, no intervalo, seguras de que eu não as conseguiria ver. E era assim. Em adulta, as coisas pioraram. Para tentar combater isso, digo a mim mesma que tenho de estar atenta e cumprimentar todas as pessoas.

Na minha cabeça, vou dizendo: "Cumprimenta, cumprimenta, cumprimenta!", e depois distraio-me com esse pensamento e tenho de voltar à realidade: "Cumprimenta, cumprimenta, cumprimenta!". Isso já fez com que cumprimentasse a mesma pessoa várias vezes, na mesma manhã, como se a estivesse a ver pela primeira vez: "Oh, bom dia, bom dia!", digo, entusiasmada, e a outra pessoa responde, com alguma estranheza: "Já nos vimos...".

Também já fez com que cumprimentasse as pessoas que estavam numa casa de banho, num shopping, em Portugal, com simpatia e entusiasmo: "Boa tarde!". As pessoas ignoraram-me, claro, havendo algumas que até me lançaram uns olhares assustados, talvez pensando, enquanto lavavam as mãos e desviavam rapidamente o olhar: "Essa senhora não está bem".

Cumprimentar é um sinal de respeito e de educação, mas as regras não são iguais em todos os lugares. Há países onde se cumprimenta com dois beijinhos, um aperto de mão ou só um inclinar de cabeça. Há países onde se cumprimenta todo o mundo, e países onde se cumprimentam só os conhecidos ou quem nos estiver a ser apresentado. E durante a pandemia da Covid--19, mudámos todos a nossa forma de cumprimentar e os beijinhos e abraços desapareceram. Uma tristeza e uma frieza para alguns, um alívio para outros. As regras são muitas e nem sempre fáceis de acompanhar. Ouvi até este diálogo, recentemente, nas escadas da clínica: Criança, falando com a sua mãe: "Bom dia!" Mãe: "Bom dia, o quê? Bom dia, cadela?"

Criança: "Bom dia, mamã!" Afinal, cumprimentar não é brincadeira! É um assunto sério! Quando se trata de cumprimentar os mais velhos ou as pessoas hierarquicamente superiores, o assunto é mais sério ainda. Então, porque é que há pessoas que não cumprimentam? Na minha experiência pessoal e profissional, estas são as principais razões:

Distração ou preocupação

Há pessoas que estão distraídas, a pensar no que aconteceu ontem à noite, a sonhar acordadas; ou preocupadas, a tentar perceber como resolver um tema grave e urgente. Nestas situações, as pessoas podem não conseguir focar-se no que se passa em redor delas e podem, momentaneamente, não conseguir interagir normalmente.

Fobia social

Há pessoas que vivenciam uma ansiedade intensa, que as impede de estarem confortáveis em situações de interacção social, preferindo ficar "no seu canto". Muitas pessoas têm medo de falar em público, sentem-se desconfortáveis a comer à frente de outras pessoas, não têm a certeza de como colocar os pés ou para onde olhar. Sentem-se inadequadas o tempo todo e têm a certeza de que estão a ser duramente julgadas pelos outros. Estas pessoas muitas vezes não cumprimentam por medo de o fazer de forma errada!

Neurodivergência

Há pessoas que são neurodivergentes, com características do transtorno do espectro autista, por exemplo. Elas podem entrar numa sala cheia de gente, dirigir-se à pessoa com quem têm de falar, para pedir uma informação.

Elas entram na sala, comunicam com a pessoa, podendo até interrompê-la, enquanto ela fala com outros, sem se darem sequer conta de que essa pessoa já estava a falar com outras pessoas. E depois de terem obtido a informação que procuravam, saem da sala. Na sala estavam cerca de 20 colegas.

Quando lhe perguntamos quem estava na sala, ela não viu, literalmente, ninguém! Só viu a pessoa com quem tinha de interagir e mais ninguém. Não por ser rude, mas porque a sua neurodivergência a levou a agir com um foco muito específico.

Falaremos melhor de neurodivergência num próximo artigo. Se alguém lhe der um "bom dia" sorridente, simpático, com comentários positivos sobre o fim-de-semana ou o dia de trabalho à frente, responda com a mesma simpatia. Não é apenas uma saudação, é ligação.

É dizer: "Estou a ver-te! Tu importas!". Mas se não o cumprimentarem, considere que essa pessoa pode estar distraída, pode estar extremamente preocupada, pode ter sérias dificuldades com a interacção social, ou pode não se ter apercebido das outras pessoas em seu redor, mesmo estando num elevador cheio. Porque também acontece!

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