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Opinião

A face oculta da transformação digital

IDEIAS & VISÕES

A literacia digital continua a ser insuficiente para uma parte significativa da população, a crescente complexidade das fraudes financeiras no espaço cibernético alimenta uma verdadeira máquina criminosa, cada vez mais sofisticada, que compromete a confiança nas instituições e coloca em causa a segurança jurídica dos cidadãos e das empresas.

Na sexta-feira da semana passada, 24 de julho de 2026, o programa "A Prova dos Factos", transmitido pela RTP Mundo, entrevistou o Procurador-Geral Adjunto para a área do cibercrime em Portugal, Pedro Verdelho, sobre o fenómeno da Fraude do CEO. Durante a entrevista, o magistrado destacou a forma como o crime organizado tem vindo a sofisticar os seus métodos de actuação.

Segundo Pedro Verdelho, este tipo de fraude transnacional consiste na personificação de altos responsáveis de empresas ou organizações, com o objectivo de induzir funcionários a efectuar pagamentos indevidos ou a partilhar informações sensíveis, explorando a confiança e a autoridade associadas aos cargos das pessoas personificadas. Chamou-me a atenção, curiosamente, o facto de, um dia antes da referida entrevista, a imprensa angolana ter noticiado um caso muito semelhante, senão idêntico.

Em Luanda, a Direcção de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP) do Comando Provincial de Luanda da Polícia Nacional deteve um cidadão brasileiro, de 38 anos, integrante de uma rede criminosa transnacional, constituída por oito indivíduos, suspeita de tentar desviar 10 mil milhões de dólares do sistema bancário angolano. A notícia, estrondosa, evidencia a crescente sofisticação e dimensão das redes criminosas internacionais, bem como a necessidade de reforçar os mecanismos de prevenção, detecção e resposta a este tipo de criminalidade, particularmente no contexto do cibercrime e da fraude financeira. O crescimento das fraudes financeiras cibernéticas é, na verdade, a face oculta da transformação digital.

A expansão da Inteligência Artificial (IA) representa uma das maiores transformações tecnológicas do século XXI, mas também uma séria ameaça para países mais vulneráveis como é o caso de Angola. Embora os benefícios da IA sejam inegáveis, a sua utilização acelerada suscita profundas preocupações e riscos, sobretudo no nosso contexto, onde a preparação institucional e tecnológica, aliada à vulnerabilidade moral humana, coloca-nos desafios de grande magnitude. O sector financeiro é um exemplo particularmente sensível.

A crescente adopção de sistemas inteligentes para análise de risco, atendimento ao cliente, processamento de operações e detecção de fraude tende a criar brechas às funções administrativas e operacionais. Esta realidade abre espaço para riscos significativos, como a utilização abusiva de dados pessoais, a proliferação de fraudes digitais, a manipulação da informação através de conteúdos falsificados, a disseminação da desinformação e o agravamento dos crimes informáticos.

crescente ambição de ascensão económica, sobretudo entre alguns jovens executivos angolanos, exige uma abordagem mais rigorosa e criteriosa nos processos de selecção e promoção. Impõe- se, por isso, uma avaliação aprofundada do percurso profissional, da idoneidade, do histórico pessoal e familiar, bem como dos princípios de moral, ética e probidade de todos os que pretendem exercer funções nestes sectores. Só assim será possível reforçar a credibilidade das instituições e assegurar que os cargos de elevada responsabilidade sejam ocupados por pessoas que reúnam não apenas a competência técnica, mas também a integridade e o exímio sentido de responsabilidade pública.

Num contexto em que a literacia digital continua a ser insuficiente para uma parte significativa da população, a crescente complexidade das fraudes financeiras no espaço cibernético alimenta uma verdadeira máquina criminosa, cada vez mais sofisticada, que compromete a confiança nas instituições e coloca em causa a segurança jurídica dos cidadãos e das empresas.

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