Profissão de risco
Temos um seguro específico para contabilistas. É uma inovação curiosa. Durante anos seguraram carros, casas, fábricas e até colheitas agrícolas. Agora chegou a vez de segurar... profissionais.
Há profissões perigosas. Mineiros, bombeiros, mergulhadores, pilotos de testes. E depois há os contabilistas angolanos. Estes últimos talvez mereçam, finalmente, um decreto presidencial que os inclua na lista oficial das profissões de risco. Não por causa de explosões, incêndios ou ataques de tubarões, mas porque todos os meses enfrentam um adversário muito mais imprevisível, o portal da AGT.
É uma espécie de roleta russa fiscal. Nunca se sabe se a plataforma vai abrir, fechar, bloquear, pedir uma palavra-passe que nunca existiu, rejeitar um ficheiro que ontem aceitava ou inventar uma nova mensagem de erro escrita num dialecto informático que nem os engenheiros conseguem traduzir. O contabilista passa horas a tentar submeter uma declaração, mas quando finalmente consegue, descobre que o prazo terminou... precisamente porque esteve horas a tentar submetê-la. Depois começa o verdadeiro espectáculo.
Do lado esquerdo do ringue entra a AGT, que garante solenemente que o sistema funciona, que a legislação é clara, que os procedimentos são simples e que, se alguma coisa correu mal, foi certamente porque o contabilista não carregou no botão certo. Do lado direito entram os empresários, furiosos com mais uma multa, mais uma coima, mais um custo inesperado, perguntando ao contabilista como é possível pagar tanto dinheiro por um erro administrativo. O pobre profissional fica exactamente no meio do fogo cruzado, levando tiros dos dois lados e sem direito a colete à prova de balas.
A verdade é que, nos últimos anos, as multas parecem multiplicar-se a uma velocidade superior à da própria economia. O Estado precisa de arrecadar receita, e ninguém discute essa necessidade. O problema começa quando o garrafão da receita fiscal parece precisar de ser enchido cada vez mais depressa para alimentar uma máquina pública que continua a desperdiçar água por todos os lados. Quando há fugas no depósito, a solução mais fácil parece ser abrir mais a torneira dos contribuintes formais. E quem segura na mangueira? O contabilista.
É ele quem explica ao empresário porque apareceu mais uma penalização. É ele quem passa noites a tentar cumprir prazos. É ele quem lê alterações legais que mudam ao ritmo das estações do ano, quando não ao ritmo das semanas. É ele quem responde por falhas que muitas vezes nem controla. E, no fim, ainda ouve que "devia ter previsto".
Talvez por isso tenha surgido agora uma solução inédita: um seguro específico para contabilistas. É uma inovação curiosa. Durante anos seguraram carros, casas, fábricas e até colheitas agrícolas. Agora chegou a vez de segurar... profissionais.
Mas o mais curioso de tudo é que ninguém parece errar. A AGT garante que tudo funciona. Os sistemas são excelentes. Os procedimentos são claros. As empresas garantem que os prejuízos são reais. Os contabilistas dizem que passam horas a resolver problemas que não criaram. E, apesar de três versões diferentes da mesma história, há apenas uma certeza: a factura acaba sempre na secretária do contabilista.
No fundo, talvez o seguro faça mesmo sentido. Não porque proteja contra vírus informáticos ou falhas de rede, mas porque, em Angola, ser contabilista é exercer a rara profissão de conseguir ser culpado antes mesmo de o sistema decidir se aceita ou não a declaração. E isso, convenhamos, já ultrapassa o risco profissional. Entra directamente na categoria dos desportos radicais.












