Afinal, a nossa "sócia" é um mal menor
A necessidade pode obrigar-nos a fazer sacrifícios, mas não deve transformar todos os sacrifícios em virtudes, nem todas as privações em provas de coragem. Há uma diferença entre viver com menos e habituar-se a viver sem aquilo que nos confere dignidade, tranquilidade e sentido de pertença.
Há dias, durante uma reunião familiar, entre conversas que se sucediam naturalmente, o tema acabou por recair sobre a emigração, os problemas enfrentados por muitos angolanos que optaram por emigrar e as dificuldades decorrentes dessa decisão, sobretudo em Portugal.
Falámos das condições de trabalho, das dificuldades de acesso à habitação e, por fim, da grave crise habitacional que se vive na Tuga. Este último tema ocupou uma parte considerável da nossa conversa, sem que, no entanto, conseguíssemos chegar a um consenso quanto aos diferentes pontos de vista apresentados.
De tudo quanto foi dito, houve um aspecto que me pareceu merecer a concordância de todos: se, em Angola, enfrentamos dificuldades que, no domínio alimentar, nos levam a recorrer à chamada "sócia" - uma prática para adquirir, em conjunto, uma caixa de frango, costeletas, arroz ou outros bens de primeira necessidade -, em Portugal, a coisa está feia.
Por lá, as dificuldades enfrentadas por quem parte em busca de melhores condições de vida são muitas. O acesso à habitação tornou-se tão difícil que até pessoas sem qualquer vínculo prévio acabam por partilhar a mesma casa, dividindo as despesas do arrendamento e, por vezes, o próprio espaço de convivência. Se, em Angola, nos associamos para garantir que não falte comida à mesa, em Portugal, há quem precise de se associar para garantir um tecto.
Ao longo da conversa, prevaleceu a ideia de que, afinal, o melhor é mesmo a nossa "sócia". Sinceramente, se já é, por si só, algo constrangedor ter de juntar recursos com alguém que mal conhecemos para comprar alimentos, só posso imaginar o grau de dificuldade que representa partilhar uma habitação com um desconhecido, sem conhecer os seus hábitos, a sua cultura, os seus valores ou a sua forma de estar na vida.
Não consigo sequer imaginar o quão delicado será gerir essa convivência no quotidiano: sair de casa de madrugada para cumprir as obrigações profissionais, deixar para trás os filhos ou outros dependentes, confiar a terceiros os nossos bens pessoais e partilhar não apenas o espaço físico, mas também as despesas de água, electricidade e outros encargos domésticos. Tudo isso exige uma dose considerável de tolerância, respeito mútuo e capacidade de adaptação.
No fundo, enquanto a "sócia", entre nós, surge como uma estratégia de solidariedade para fazer face ao custo dos alimentos, a partilha de habitação, em Portugal, parece constituir, para muitos, uma resposta à necessidade de sobreviver num contexto em que até o direito a um espaço próprio se torna cada vez mais difícil de concretizar. É precisamente aqui, nos detalhes, onde residem as diferenças. Por cá, com todas as virtudes e defeitos que nos caracterizam, quando não se tem casa, mesmo que seja de chapa, procura-se, na maioria dos casos, alugar um espaço próprio, sem a necessidade de o partilhar com desconhecidos.
Aliás, não conheço, na nossa realidade angolana, muitos casos em que pessoas que não se conhecem optem por partilhar a mesma habitação. Hoje, emigrar para a Tuga na esperança de mudar de vida exige também concessões pessoais. É preciso disfarçar ambições, conter vaidades e abdicar de algo que a nossa cultura tanto valoriza: a privacidade. Afinal, uma coisa é partilhar os custos da alimentação. Outra, bem diferente, é dividir as despesas e o espaço mais íntimo da nossa vida com desconhecidos.
A necessidade pode obrigar-nos a fazer sacrifícios, mas não deve transformar todos os sacrifícios em virtudes, nem todas as privações em provas de coragem. Há uma diferença entre viver com menos e habituar-se a viver sem aquilo que nos confere dignidade, tranquilidade e sentido de pertença.
Mudar de país pode ser uma estratégia para mudar de vida, mas não deveria exigir que renunciássemos à nossa própria intimidade. Afinal, apesar de todas as contrariedades, a nossa "sócia" é um mal menor.














