A Inflação até ao 3.º Trimestre de 2026
Insistimos que o controlo da importação e protecção da produção interna sejam feitos não através da limitação administrativa das importações, mas elevando os seus preços através de uma taxa de câmbio que genericamente coloque os produtos externos ligeiramente acima dos preços internos dos produtores internos medianos, mas mantendo a pressão concorrencial sobre os nossos produtores actuais ou potenciais.
Observe-se o gráfico 1. A inflação mensal em 2024 começa por ser elevada e crescente, passando de 2,49%, em Janeiro, para 2,61%, em Abril. A partir desse ponto, assiste-se a uma queda marcada da inflação, que em Julho de 2024 atinge o nível de Julho de 2023 e, de seguida, se mantém estável em cerca de 1,6% com ligeira subida em Dezembro para 1,7%. No começo de 2025, a linha volta a cair quase continuamente (observe-se a quase coincidência dos valores mensais com a tendência) de 1,67% para 0,95%. A anomalia de Julho ficou a dever-se ao efeito da subida do gasóleo e ao efeito da inflação anual da educação.
A inflação mensal em 2026, decresce uma trajectória ligeiramente côncava que parte e termina em 0,68%, atingindo mínimos de 0,52% em Fevereiro e Junho e máximo de 0,75% em Julho, devido ao aumento sazonal da Educação. Tendencialmente (linha a cheio), o mínimo situa-se em Abril, havendo uma inversão de tendência a partir dessa data, com a linha a subir de 0,53% para 0,69%.
O valor médio mensal até Setembro é de 0,6%, o que representa um valor anualizado de 7,4%. Estimando uma inflação mensal nos meses subsequentes, em linha com a tendência actual e a sazonalidade do final do ano, teremos uma inflação anual de cerca de 8,0%, 1% acima da nossa previsão no relatório do 1.º Trimestre, onde não antecipámos a inversão de tendência.
A verificar-se, esta seria uma das mais baixas de sempre e situar-se-ia 5,7 p.p. abaixo da estimativa do OGE26 (13,7%). De qualquer forma trata-se de uma inflação em 1 dígito, conforme o objectivo do Governo, e a estimativa do BAD para a inflação média de 2026 na SADC (8,4%). Note-se, contudo, que o objectivo de inflação da região é de entre 3% a 5%, o que, na actual conjuntura, se afigura difícil de alcançar.
Observe-se o gráfico n.º 2.
A variação trimestral do IPCN a pre s e nt av a e st a bi li d a d e , próximo de 2,5%. A partir do 2.º trimestre de 2023 (crise cambial em Junho) apresenta um comportamento crescente, com uma lomba entre o 2.º Trimestre de 2023 e o 3.º Trimestre de 2024, e um crescimento da inflação trimestral de 2,5% para cerca de 5%. Desd e o 3. º T r i m e st r e d e 2 0 24 , observa-se uma estabilização d a i n f l a ç ã o t r i m e st r a l n u m patamar ligeiramente abaixo dos 5%. No 2.º Trimestre de 2 0 2 5, a i nf l a ç ã o t r i m e st r a l quebra a barreira de 4%, caindo para 3,8% e estabilizando para 3,6% no 3.º Trimestre.
Po st e r i o r m e n t e , a d e s ci d a acentua-se, quebrando a barreira de 3%, atingindo 2,75%, no 4.º Trimestre. Resumidamente, a linha de tendência polinomial de grau 3 desenha uma curva côncava que se inicia em cerca de 2,5%, atinge o máximo de cerca de 7% no 1.º Trimestre de 2024 e termina e m 2 0 2 5 e m ce r c a d e 2 , 7 % , aproximando-se dos valores do início da série. Em 2026, a taxa trimestral parecia querer estabilizar em 1,7% (1,75 no 1.º Trimestre e 1,64% no 2.º Trimestre), mas no 3.º Trimestre sobe para 2,03, mostrando uma importante inversão de tendência que só pode ser parcialmente explicada pelo pico sazonal de Julho.
Pensamos que o efeito na inflação da crise cambial de Junho de 2023 é reflectido de forma mais nítida na análise da inflação trimestral, onde a lomba correspondente à crise de 2023 e à sua recuperação são bem nítidas! Em 2026, a descida da inflação trimestral para valores abaixo dos 2,5% iniciais, parece comprometida com a hipótese de regresso a cerca de 2,4% no 4.º Trimestre. Contudo, observando o efeito acumulado, temos, no espaço de 4 anos desta legislatura, um crescimento dos preços em Luanda de 105% (mais do que o dobro) a um ritmo médio anual composto de cerca de 19,7%, e no total nacional cerca de 91%, a um ritmo médio anual de cerca de 17,6%! É esta, talvez, uma das melhores medidas das dificuldades das famílias nesta legislatura!
Causas da inflação em Angola A causa determinante das variações dos preços continua a ser o fluxo de Moeda Externa (ME), nomeadamente o proveniente dos rendimentos petrolíferos. Contudo, se até Setembro de 2023, esta influência se manifestou através da pressão sobre os preços de importação devido à desvalorização cambial, a partir dessa data foi a escassez provocada pela redução da importação de bens alimentares e medicamentos que determinou uma inflação crescente. O sucesso do combate à inflação ficou a dever-se a 3 factores essenciais que o CINVESTEC propôs pelo menos um ano e meio antes de serem aplicados:
01. Controlo cambial por parte do BNA, fixando-se a taxa de câmbio real. O Governo optou pela fixação da taxa de câmbio nominal, que agora precisa de ser corrigida para a taxa real, deixando o Kwanza desvalorizar pelo menos na razão entre a taxa de inflação interna e a dos principais parceiros da SADC.
02. Garantia do abastecimento dos produtos de grande consumo, que foi dares da responsabilidade da equipa do MECE e do MIndCom. Foi o deficiente abastecimento destes produtos que constituiu a principal causa da inflação em finais de 2023 e no início de 2024, após a estabilização cambial no final de 2023. 03. Controlo monetário, apesar das iniciativas de expansão monetária do Governo, mas que o BNA soube manter a nível apenas um pouco acima do que seria aconselhável.
No 2.º Trimestre de 2026 a importação de bens alimentares volta a descer perigosamente. O resultado vê-se imediatamente na inflação subsequente.
Felizmente parece haver indícios de inversão. Insistimos que o controlo da importação e protecção da produção interna sejam feitos não através da limitação administrativa das importações, mas elevando os seus preços através de uma taxa de câmbio que genericamente coloque os produtos externos ligeiramente acima dos preços internos dos produtores internos medianos, mas mantendo a pressão concorrencial sobre os nossos produtores actuais ou potenciais. De outra forma os preços sobem, prejudicando os consumidores, que somos todos nós, e prejudicando os produtores que não aprendem a tornar-se competitivos. Para os produtos onde sejamos menos eficientes, devemos ter a protecção adicional de taxas aduaneiras, tendencialmente decrescentes.
*Talaia Ferreira, Gestor e Consultor Fiscal
Edição 899 do Expansão, de 23 de Outubro














