"As inteligências artificiais são úteis, mas não nos substituem"
Nuno Crespo é um curador e docente que cruza a arte, a arquitectura e a filosofia. Director da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa alerta para os riscos daquilo a que chama a «ditadura do algoritmo», que ameaça o pensamento crítico e a criatividade. Defende que a arte nas universidades é essencial para formar cidadãos capazes de questionar a realidade.
É curador-chefe da edição inaugural da Trienal de Arte das Universidades Católicas (Trienal ART CUT), que decorrerá em várias cidades do mundo. Em Luanda, realiza-se de 29 de Outubro a 20 de Dezembro de 2026. Como surgiu a iniciativa?
Durante o pontificado do Papa Francisco, criou-se um órgão de governo da Cúria Romana, uma espécie de ministério a que chamam Dicastério para a Cultura e a Educação. O cardeal nomeado para o dirigir foi José Tolentino de Mendonça. O Dicastério coordena todo o sistema educativo católico no mundo e também tem a responsabilidade cultural destas instituições. No vocabulário do Vaticano, cultura não é o mesmo que património. Assim, esta iniciativa está ligada à arte contemporânea. O Dicastério começou a realizar diversas actividades ligadas à participação do Vaticano, da Santa Sé, nas Bienais de Veneza, de Arquitectura e de Artes Visuais, e ganhou notoriedade. Isso abriu caminho ao desenvolvimento de outros projectos no campo da arte contemporânea. Portanto, quando concebemos o projecto, foi com o objectivo de criar um evento de arte com capacidade de afirmação global, mas queríamos também que fosse pertinente em diferentes contextos. É por isso que a Trienal acontece noutras cidades do mundo, como o Rio de Janeiro, Santiago, Bogotá, Boston, Milão, Lisboa e Luanda, seguindo-se uma última exposição em Veneza.
Quais são os outros projectos que nasceram dessa iniciativa?
Nasceu o projecto de arte contemporânea na cidade do Vaticano, denominado Conciliação V, uma pequena galeria ou montra localizada na Via da Conciliação, que dá acesso à Basílica de São Pedro, entre outras actividades. O cardeal José Tolentino de Mendonça teve a iniciativa de criar um evento global de arte contemporânea que colocasse os artistas e o meio artístico em diálogo com a rede de universidades católicas espalhadas pelo mundo. A Trienal de Arte das Universidades Católicas nasce, assim, da vontade de aproximar educação, arte, universidade e práticas artísticas contemporâneas.
Quais são os principais objectivos da Trienal de Arte das Universidades Católicas?
O cardeal é um poeta famoso e sempre esteve muito próximo dos artistas contemporâneos. Lembro-me de que trabalhava na paróquia de Santa Isabel, em Lisboa, e sempre promoveu encontros e debates com os artistas. Um dos seus propósitos tem sido promover o diálogo com os não-crentes, recorrendo também à arte e à cultura como espaços de encontro. Levava os artistas à igreja e estes ajudavam- -no a estabelecer uma conversa mais alargada com a sociedade em geral, independentemente de as pessoas serem crentes ou não, ou de serem críticas das posições e das políticas do Vaticano. Esta presença dos artistas na igreja sempre serviu para aproximar a sociedade civil, porque o melhor instrumento que temos para fazer uma leitura da sociedade contemporânea é a arte, ou são os artistas. Os artistas permitem-nos fazer uma leitura das tensões e dos problemas que habitam a sociedade e que, de outra maneira, nos ficam inacessíveis.
Os artistas têm um papel fundamental na transformação e no desenvolvimento das sociedades?
Os artistas são instrumentos férteis e úteis quando queremos entender os problemas sociais e abordar temas difíceis ligados à política e à história, que, fora do contexto artístico, são difíceis de abordar. Vivemos num tempo de muita agressividade, discussão e zanga, em que, muitas vezes, parece que não podemos ter opiniões diferentes sem nos ofendermos. Foi a partir desta conjuntura que nasceu a vontade de organizar a Trienal...
















