Gordos na classe executiva
Hoje, quando tentamos elogiar uma pessoa gorda, vêm logo os comentários dos Fiscais do Índice de Massa Corporal (IMC): "Não faças isso! Elogiar um corpo gordo é promover hábitos pouco saudáveis!". Esses pretensos fiscais da saúde pública confundem um elogio à beleza ou à dignidade humana com uma apologia à romantização de patologias crónicas e do sedentarismo...
Nós, os gordos, deveríamos viajar sempre em classe executiva! Os assentos são muito mais largos e confortáveis, e os cintos de segurança mais compridos. Deveria ser um direito. E talvez ajudasse a diminuir o preconceito e a gordofobia, assim como a silenciar os fiscais do IMC de plantão. Vou contar algo que aconteceu comigo.
Uma tarde, estava eu a passear no Shopping de Belas com uma amiga, quando, de repente, caminhando ao nosso encontro, se aproximou a avó da minha amiga, acompanhada de outras pessoas. A avó da minha amiga cumprimentou-a, depois olhou para mim, percebeu quem eu era, não se conteve e exclamou: "MEU DEUS, TU ESTÁS TÃO GORDA!".
E desatou a rir alto, sem parar. Eu não consegui dizer nada. Ela não parava de rir. Ela era uma senhora bem mais gorda do que eu, mas a felicidade dela ao ver-me com tanto peso a mais era tal, que tenho a certeza de que dizer- -lhe "Olhe, você também está gordíssima, está até mais gorda do que eu" só teria resultado em mais gargalhadas. Eu e a minha amiga afastámo-nos, enquanto a sua avó continuava a rir, atrás de nós. A minha amiga tentou consolar-me. Não adiantou. A humilhação tinha sido grande demais. Vamos, então, ao tema de hoje, que esse episódio ilustra: a gordofobia!
O que aconteceu com a simpática frase "Gordura é formosura"? Houve uma altura em que uma mulher com peso a mais era vista como bonita, saudável, forte; e um homem com barriga era tido como rico! Abastado. A gordura significava ter o que comer, e ter o que comer significava ter dinheiro. Mas esses tempos ficaram no passado. Hoje, quando tentamos elogiar uma pessoa gorda, vêm logo os comentários dos Fiscais do Índice de Massa Corporal (IMC): "Não faças isso! Elogiar um corpo gordo é promover hábitos pouco saudáveis!".
Esses pretensos fiscais da saúde pública confundem um elogio à beleza ou à dignidade humana com uma apologia à romantização de patologias crónicas e do sedentarismo; e transformam a preocupação com a saúde num disfarce para o preconceito! Considerar as pessoas gordas como sendo feias, indignas, desleixadas, preguiçosas, sem força de vontade e indisciplinadas é um reflexo da gordofobia - a discriminação e o preconceito contra as pessoas gordas, que é estrutural e institucional, e que reduz o valor da pessoa ao tamanho do seu corpo.
abalho é onde o preconceito deixa de ser apenas um comentário desagradável (e um ataque de riso inconveniente) e passa a afectar directamente a sobrevivência, o salário e a carreira de alguém. O preconceito começa antes mesmo da contratação. Candidatos gordos - especialmente mulheres - têm menos hipóteses de serem contratados, mesmo apresentando currículos idênticos ou superiores aos de candidatos magros. Há um viés inconsciente (e às vezes consciente) que associa o corpo gordo a uma imagem de desleixo, falta de controlo, passividade e lentidão.
A gordofobia corporativa fantasia-se, muitas vezes, de "incentivo à saúde". Temos o colega que vigia o prato alheio na hora do almoço e diz: "Vais mesmo comer essa sobremesa?"; ou a colega que comenta, supostamente preocupada: "Vais comer isso tudo? Credo!". Algumas dinâmicas de team building ou as fardas e t-shirts que simplesmente ignoram a existência de corpos maiores, gerando humilhação pública, são também exemplos de gordofobia.
A insistência em conversas de dieta e "foco, força e fé" no meio do expediente, como se a produtividade de alguém dependesse do número de calorias que queima, também não ajudam. Claro que este escrutínio brutal tem a sua contrapartida financeira. Não há como falhar, quando se trata de lucrar a partir da discriminação do outro. A indústria da perda de peso é um negócio global de centenas de milhões de dólares! Vivemos na cultura das dietas: a dieta cetogénica, a dieta paleo, a dieta mediterrânica, o jejum intermitente; os alimentos saudáveis; os alimentos hipocalóricos; as canetas emagrecedoras, como a Mounjaro; as clínicas de estética; os filtros no telemóvel.
Queremos todos (e todas, há muito mais tempo) emagrecer. Passamos a vida a tentar emagrecer. Gastamos fortunas. Sentimo-nos falhados. E, como se isso não fosse suficiente, sofremos bullying em casa, na escola e no local de trabalho por causa do peso! Não há um olhar simpático nem compreensivo. Há gargalhadas e comentários negativos. Há gordofobia!
A obesidade está associada a maiores riscos de certas doenças (cardiovasculares, diabetes, etc.). É nisto que os "fiscais" se apoiam para justificar os seus comentários. A lógica parece ser a de que insultar, envergonhar e humilhar alguém por ser gordo equivale a um tratamento médico eficaz, ou pelo menos a uma receita de emagrecimento. Esquecem que a saúde mental também conta. Ninguém vai dizer ao senhor que está a beber umas cervejas: "Olhe, tenha cuidado com o fígado!", mas basta ver uma bola de Berlim cheia de creme diante de uma pessoa gorda que os comentários chovem: "Tens de ter cuidado! É melhor evitar!". Hoje mesmo ouvi, ao comprar uma torta com creme: "Olhe que isso faz mal!".
Sim, há que fazer um esforço para perder algum peso, devido ao facto de a obesidade e o sedentarismo representarem sérios factores de risco para a saúde, mas isso não faz com que as pessoas gordas sejam menos bonitas, competentes ou focadas. Para além disso, na minha opinião, as instituições deveriam passar a preocupar-se com o bem-estar das pessoas gordas, garantindo, no local de trabalho, cadeiras mais espaçosas e confortáveis... e, claro, um lugar na classe executiva sempre que viajarmos em serviço, de avião!













