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Opinião

Factoring | Quando a factura pode valer mais do que o crédito

CONVIDADO

O factoring existe em Angola e é reconhecido no nosso sistema financeiro. A questão é saber se está a ser utilizado com a dimensão que poderia ter. E aqui surge uma reflexão importante. Se os bancos conseguem mobilizar recursos para financiar o Estado através da dívida pública, por que não podemos criar condições para que uma parcela maior desses recursos seja utilizada para financiar os créditos que já existem na economia?

Há uma questão que merece ser colocada no debate sobre o papel da banca em Angola: estaremos a aproveitar todo o potencial dos bancos para financiar a economia real? Os bancos têm investido fortemente em títulos da dívida pública, uma opção que, pelas suas características, pode apresentar menor risco e uma rentabilidade atractiva.

Ao mesmo tempo, muitas empresas continuam a enfrentar dificuldades de tesouraria, sobretudo por causa das vendas a prazo. Imagine-se uma empresa que vende hoje e só recebe do cliente 90 dias depois. A mercadoria já saiu. A factura já foi emitida. O IVA já entrou na conversa. Só falta mesmo entrar o dinheiro. Mas os salários não esperam 90 dias. Os fornecedores também não. A energia, as rendas e outras despesas continuam a vencer-se.

É precisamente neste intervalo entre vender e receber que o factoring pode fazer a diferença. De forma simples, a empresa cede ao banco os seus créditos comerciais e recebe antecipadamente uma parte significativa do valor da factura, mediante os custos acordados. No vencimento, o cliente paga ao banco. A empresa ganha liquidez. O banco ganha um activo. E a economia ganha circulação de dinheiro. Mais importante: não estamos necessariamente perante um simples financiamento baseado na capacidade financeira da empresa.

O banco pode analisar também quem deve pagar a factura, a sua capacidade de pagamento, o histórico da relação comercial e a existência efectiva do crédito. O factoring existe em Angola e é reconhecido no nosso sistema financeiro. A questão é saber se está a ser utilizado com a dimensão que poderia ter. E aqui surge uma reflexão importante. Se os bancos conseguem mobilizar recursos para financiar o Estado através da dívida pública, por que não podemos criar condições para que uma parcela maior desses recursos seja utilizada para financiar os créditos que já existem na economia? Uma empresa pode ter bons clientes, contratos, vendas e uma carteira cheia de facturas - e, ainda assim, ter a conta bancária vazia.

É uma situação curiosa: há dinheiro para receber, mas não há dinheiro para pagar. O factoring pode ajudar a resolver precisamente esse paradoxo. Não significa que a banca deva abandonar o financiamento do Estado ou deixar de investir em dívida pública. Significa, antes, que talvez seja necessário procurar um equilíbrio maior entre financiar o Estado e financiar quem produz. Porque quando um banco financia uma factura, não está apenas a antecipar dinheiro a uma empresa. Está a ajudar essa empresa a pagar salários, fornecedores, impostos, manter a produção e continuar a vender.

No fundo, está a financiar a própria circulação da economia. Talvez esteja na hora de olharmos para a factura não apenas como um documento que comprova uma venda, mas como um activo que pode ajudar a financiar o crescimento.

Silvestre Manjolo, Consultor Financeiro, Compliance e Perito Contabilísta

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