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Opinião

Para quando a redução sustentada da inflação? Parte final

LABORATÓRIO ECONÓMICO

Não é de somenos importância e utilidade falar-se da inflação, sobretudo nos tempos de crise económica e financeira global - mais uma, depois de 2008/2009 cujos efeitos perversos ainda se sentem, sendo as expectativas de elevadas taxas de inflação e de juro e de baixas taxas de variação do Produto Real uma consequência desse abalo.

O Fundo Monetário Internacional, no seu World Economic Outlook de Outubro de 2022, receia mesmo que a economia mundial reduza substancialmente a sua dinâmica de crescimento, perdendo-se o seu anterior fulgor, um pouco devido ao abrandamento da variação real do PIB da parte da China, podendo, até, algumas das componentes territoriais da economia mundial entrar em recessão (com inflação, uma das piores combinações em economia).

Como absorverão as economias africanas estes comportamentos recessivos dos países com os quais maioritariamente mantêm relações, económicas, financeiras e comerciais? As 20 economias mais pobres do mundo estão localizadas neste continente e as perspectivas de crescimento até 2026, na generalidade, não ultrapassam a taxa real anual de variação do PIB de 3,7%.

Angola não se desvia deste comportamento-tipo, prevendo o FMI uma taxa de incremento do Produto de 2,9% para o corrente ano e 3,4% para 2023. Até 2026, as previsões do CEIC (Relatório Económico 2021) colocam a taxa média anual de variação real do PIB em 3%, ligeiramente superior a 2,6% que o Fundo Monetário apresenta como tendência de médio prazo 2010-2018.

Admitindo-se que a inflação não é meramente um fenómeno monetário, mas também um facto gerado no mais profundo das economias reais, como ultrapassar-se, de forma sustentada (retomando a preocupação expressa no título do artigo) o ritmo de aumento dos preços com taxas médias anuais de variação real do PIB de apenas 3%, insuficiente para se cobrirem os custos de reprodução do Homem?

É um dos grandes desafios da economia angolana ao qual os partidos políticos se limitaram a afirmações de circunstância quanto à necessidade da sua superação. E essa é que é a grande diferença em se ter uma VISÃO para o país, especialmente centrada nos modelos de desenvolvimento e de progresso social que façam o país funcionar e encontrar um caminho no qual todos se revejam e acreditem poder gerar felicidade. Como se está não vale a pena continuar, pois a inflação combina-se com elevadas taxas de pobreza, conjuntamente contribuindo para a ocorrência de índices de miséria elevados, que envergonham qualquer cidadão.

O Índice de Miséria foi criado pelo economista norte-americano Arthur Okun (1928-1980)(3) , um indicador resultante da soma das taxas de inflação e de desemprego. Okun, nos seus estudos, estava perfeitamente consciente de que tanto a inflação quanto o desemprego são doenças sociais graves, dados os seus efeitos devastadores sobre o bem-estar da população.

Em Angola, como se tem vindo a anotar nestes artigos sobre controlo sustentado da subida dos preços, prevalecem, desde há bastante tempo, taxas de inflação e taxas de desemprego com valores disparatados, cujas políticas de atenuação/vencimento não têm produzido resultados. O que Okun pretendia era medir a incidência destes dois comportaentos recessivos sobre os rendimentos dos cidadãos, especialmente dos mais pobres. Não é fácil estabelecer limites para a taxa de inflação e para a taxa de desemprego, porque dependem da capacidade de crescimento das economias, das respectivas taxas naturais de desemprego, do estádio de desenvolvimento de cada uma delas e dos modelos de crescimento adoptados.

Como se sabe, na União Europeia tinha sido estabelecido um limite superior de 2% para a taxa de inflação, largamente ultrapassado pelas incidências negativas da invasão russa e das crises energética e de cereais. Parece, no entanto, que essa meta se mantém a médio prazo, a despeito de alguns trambolhões ocorridos em alguns países, onde o seu valor poderá tocar nos 10% ainda este ano. As políticas para se atingir esse desiderato estão em marcha, com a aplicação de programas de contenção na quebra dos poderes de compra dos rendimentos, avaliados em largos milhares de milhões de euros.

Aponta a teoria económica que taxas de inflação superiores a 4% desencadeiam um processo de corrosão do poder de compra dos rendimentos, com reflexos na pioria do padrão médio de vida. O mesmo é válido quanto à taxa de desemprego (30% em Angola, de acordo com as mais recentes estatísticas oficiais), tornando-se igualmente difícil estabelecer o valor a partir do qual se torna num mal social severo.

Nas economias desenvolvidas e emergentes, com dinâmicas de crescimento acentuadas antes da presente crise económica mundial, as taxas de desemprego têm-se situado no intervalo 5%-10%. Taxas de desemprego até 5% podem considerar-se uma situação normal, não causadora de males sociais severos (as economias nunca atingem o "pleno emprego" e a taxa natural de desemprego nas economias mais desenvolvidas está estabelecida em 4% e é explicada por vários factores, entre os quais o chamado "desemprego friccional").

(Leia o artigo integral na edição 699 do Expansão, de sexta-feira, dia 04 de Novembro de 2022, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

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