Saltar para conteúdo da página

Logo Jornal EXPANSÃO

EXPANSÃO - Página Inicial

Opinião

Produzir e inovar localmente, vencer globalmente | O paradoxo competitivo de Angola (Parte II)

CONVIDADA

A infra-estrutura logística é o elo que torna esta ambição exequível. O desenvolvimento de corredores, como o do Lobito, ligando o interior produtivo às rotas atlânticas, ilustra o potencial de transformar geografia em vantagem competitiva ao reduzir tempos de trânsito, baixar custos logísticos e criar plataformas de agregação de valor ao longo do trajecto, em vez de limitar a produção nacional ao escoamento de matérias-primas em bruto.

Este é o segundo de dois artigos sobre o mesmo tema. A primeira parte foi publicada em separado. A primeira parte desta reflexão mostrou que a competitividade externa se desenha na organização da produção: na verticalização das cadeias, na concentração em polos industriais e na coopetição entre concorrentes. Os números mais recentes tornam essa urgência mais concreta.

A economia angolana cresceu 5,32% no primeiro trimestre de 2026 em termos homólogos, segundo o Instituto Nacional de Estatística, com o sector petrolífero em contracção pelo quinto trimestre consecutivo (-0,21%) e o sector não petrolífero a crescer 6,22%. A diversificação é o que sustenta o crescimento observável. Falta responder como transformar essa organização produtiva em capacidade real de competir e escalar além das fronteiras nacionais, o que estrutura esta segunda parte.

É precisamente neste ecossistema que a tecnologia assume o seu papel mais decisivo, e vale a pena distinguir três planos em que ela actua. O primeiro é o acesso, para garantir que pequenas e médias empresas, e não apenas os grandes operadores, conseguem entrar em sistemas digitais de gestão, rastreabilidade e certificação. Sem isso, ficam estruturalmente impedidas de participar em cadeias de valor mais exigentes, por melhor que seja o seu produto.

O segundo é a adopção partilhada, à semelhança da lógica de coopetição, soluções tecnológicas de maior custo como plataformas de dados sectoriais, laboratórios de certificação digital, sistemas de rastreabilidade de exportação, tornam-se viáveis quando adquiridas e operadas em conjunto por um arranjo produtivo ou por um polo, em vez de exigirem investimento individual repetido por cada empresa.

O terceiro é a modernização da própria produção, com a incorporação de automação, sensorização e dados em tempo real. Os princípios da Indústria 4.0, como condição mínima para que o crescimento de escala não sacrifique qualidade nem consistência, com o horizonte da Indústria 5.0 a apontar para uma produção tecnologicamente avançada mas centrada na resiliência e no factor humano.

A combinação destes três planos tem muito mais capacidade de transformar tecnologia em vector de exponencialidade, do que o investimento isolado de uma empresa pioneira. Isto permite a difusão organizada de capacidade digital por todo um arranjo produtivo, que permite que ganhos de produtividade se multipliquem em rede, em vez de permanecerem confinados a ilhas de excelência. Este conjunto de transformações exige também uma mudança de horizonte na concepção do próprio produto, a ideia é produzir não apenas para satisfazer a procura interna, mas desenhar, desde a origem, a capacidade de responder a padrões e volumes de mercados externos.

A infra-estrutura logística é o elo que torna esta ambição exequível. O desenvolvimento de corredores, como o do Lobito, ligando o interior produtivo às rotas atlânticas, ilustra o potencial de transformar geografia em vantagem competitiva ao reduzir tempos de trânsito, baixar custos logísticos e criar plataformas de agregação de valor ao longo do trajecto, em vez de limitar a produção nacional ao escoamento de matérias-primas em bruto. Corredores eficientes não substituem a competitividade industrial, muito pelo contrário, multiplicam-na, ao tornar viável a entrada de produtores angolanos em cadeias de valor regionais e globais.

O corredor tem hoje financiamento concreto por detrás da retórica. A Comissão Europeia mobiliza, através da iniciativa Global Gateway e da Parceria para o Investimento e Infra-estrutura Global, mais de dois mil milhões de euros para os territórios atravessados pelo corredor, incluindo apoio directo a cadeias de valor agrícolas e a plataformas logísticas associadas, segundo a Comissão Europeia. Em Dezembro de 2025, os Estados Unidos e a Comissão Europeia reafirmaram, em declaração conjunta, a intenção de sincronizar esse financiamento internacional com a reabilitação em curso do lado angolano do corredor.

Esta convergência de capital público internacional é o que distingue um corredor anunciado de um corredor construído. Há ainda um elemento de descentralização que não pode ser ignorado. Não se vence globalmente com capacidade instalada apenas em Luanda. A escolha da Huíla como província mascote da FILDA 2026 foi, nesse sentido, simbólica e oportuna, e lembra-nos que a competitividade nacional depende de multiplicar polos produtivos pelo território, sob pena de mantermos um país a duas velocidades.

Edição 890 do Expansão, sexta-feira, dia 21 de Agosto de 2026

Logo Jornal EXPANSÃO Newsletter gratuita
Edição da Semana

Receba diariamente por email as principais notícias de Angola e do Mundo