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Opinião

Os "assim assim"

EDITORIAL

São difíceis de gerir porque alguns têm currículo, capacidade intelectual, história dentro da família e peso suficiente para não poderem ser simplesmente empurrados pela porta fora

Há uma nova categoria a circular nos meios políticos. Ainda não consta dos estatutos nem aparece nos organogramas, mas já entrou no vocabulário das conversas onde se decide quem é quem. Pergunta-se por alguém: "Esse é dos nossos?" Há uma pausa, uma rápida consulta ao cadastro político do cidadão e surge a classificação: "assim assim...". Nasceu uma nova espécie política. Durante muito tempo, a nomeação era mais simples. Havia os bajuladores, os alinhados e os excomungados. Agora apareceu uma quarta categoria, estrategicamente colocada entre quem obedece e quem já não é convidado para jantar.

No topo continuam os bajuladores. São os que conseguem transformar a inauguração de uma rotunda numa visão estratégica para o século XXI. Se o chefe chega cedo, é disciplina. Se chega tarde, esteve a trabalhar pelo País. Se fala muito, é pedagogia. Se não fala, é sabedoria. Se muda de opinião, é capacidade de adaptação. O verdadeiro bajulador nunca é apanhado desprevenido: seja qual for a decisão, já concordava com ela antes de a conhecer.

Depois vêm os alinhados. Gente mais discreta. Concorda com a orientação geral, reconhece as realizações do chefe, cumpre as ordens e não precisa de descobrir genialidade em cada despacho. Pode até discordar, mas fá-lo preferencialmente em casa, com a televisão alta e depois de confirmar que os telemóveis estão longe.

E chegamos aos "assim assim". Também estão alinhados, mas desenvolveram um hábito desconfortável: pensam. E, pior, às vezes dizem aquilo que pensam. Concordam com muita coisa, mas criticam outras. Apontam erros, questionam decisões, apresentam alternativas e têm o péssimo costume de sugerir soluções quando toda a gente estava confortavelmente ocupada a explicar por que razão não havia alternativa.

São difíceis de gerir porque alguns têm currículo, capacidade intelectual, história dentro da família e peso suficiente para não poderem ser simplesmente empurrados pela porta fora. São respeitados porque têm opinião própria. Mas também são vigiados precisamente pela mesma razão. Mas um "assim assim" que exagere na dose corre o risco de atravessar a fronteira e entrar na quarta categoria: os excomungados. Esses já passaram, muitas vezes, por todas as anteriores designações.

Segundo os bajuladores - guardiões informais do equilíbrio cósmico - criticam demasiado, perguntam demasiado e, pecado dos pecados, às vezes fazem contas. A partir daí deixam de ter cadeira à mesa. Se tiverem peso político, económico ou histórico, continuam pelas proximidades, embora sem direito a sobremesa. Se não tiverem dimensão suficiente, são expulsos da família e passam rapidamente de "companheiros de longa data" a pessoas que, afinal, "nunca compreenderam verdadeiramente o projecto".

Esta tabela costuma reaparecer quando se aproximam eleições, congressos, sucessões ou decisões importantes. É quando aumenta a necessidade de saber quem é "dos nossos", quem é quase dos nossos e quem já deve ser tratado como se nunca tivesse sido. Talvez o aparecimento dos "assim assim" seja, apesar de tudo, um progresso. Significa reconhecer que entre a fidelidade absoluta e a excomunhão pode existir uma pequena zona onde ainda é permitido concordar sem aplaudir e criticar sem fazer imediatamente as malas. Antes tínhamos três categorias. Agora temos quatro. A este ritmo, ainda chegamos à quinta: os que podem simplesmente ter opinião. Mas talvez seja melhor não acelerar demasiado as reformas...

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