Saltar para conteúdo da página

Logo Jornal EXPANSÃO

EXPANSÃO - Página Inicial

Opinião

Recuperar não é adiar a dívida | A que deve conter um verdadeiro plano de recuperação

ABC DA INSOLVÊNCIA

Recuperar não é simplesmente dar mais tempo para pagar. É transformar uma empresa com dificuldades numa empresa capaz de voltar a cumprir. A recuperação orientada para a preservação de valor começa aí: não em perguntar apenas quanto a empresa deve, mas quanto valor ainda pode gerar e como preservá-lo.

Quando uma empresa entra em dificuldade financeira, uma resposta frequente é renegociar a dívida e ganhar tempo. O problema é que tempo, por si só, não recupera uma empresa. Se, durante o período concedido, continuar a gerar resultados insuficientes, a reestruturação apenas adia o incumprimento e pode aumentar as perdas. O objectivo de um plano de recuperação deve ser criar condições para que a empresa volte a gerar capacidade suficiente para cumprir, de forma sustentável, as suas obrigações. Isto exige começar pelo diagnóstico.

Antes de definir condições de pagamento, é necessário perceber se existe actividade viável, quais as causas da dificuldade, que capacidade operacional permanece e qual a capacidade real de geração de caixa. A reestruturação da dívida pode ser necessária, mas raramente é suficiente. Pode ser necessário reorganizar a operação, reduzir custos, alienar activos não essenciais, rever a estrutura de financiamento, reforçar a gestão ou estabelecer compromissos dos sócios. Cada medida deve estar ligada a um objectivo económico mensurável.

É também essencial distinguir a recuperação da mera suspensão do problema. Um período de carência ou um alongamento do prazo pode ser adequado quando permite à empresa recuperar capacidade de geração de caixa. Mas, se não existir uma alteração estrutural que justifique a melhoria futura, a solução apenas transfere para amanhã uma dificuldade que já existe hoje. Por isso, um plano sério deve definir metas, responsabilidades, prazos e indicadores de acompanhamento.

A implementação e a monitorização não podem ser etapas secundárias. Se as medidas não forem executadas ou os resultados esperados não forem alcançados, é necessário reavaliar rapidamente a estratégia e decidir se a recuperação continua a ser economicamente justificável. Esta abordagem é particularmente importante para bancos e para a Administração Geral Tributária.

Para o credor, recuperar uma empresa viável pode significar recuperar mais crédito do que através da execução de garantias ou da liquidação dos activos. Para a empresa, significa preservar actividade e emprego. Para o Estado, significa proteger capacidade produtiva e os créditos fiscais.

ditos fiscais. O RJREI consagra uma mudança importante de paradigma: a empresa não deve ser encarada apenas pela perspectiva da liquidação, mas também como valor económico e social que pode justificar preservação. Essa opção só produz resultados quando a recuperação assenta em critérios objectivos, medidas concretas e acompanhamento efectivo.

Recuperar, portanto, não é simplesmente dar mais tempo para pagar. É transformar uma empresa com dificuldades numa empresa capaz de voltar a cumprir. A recuperação orientada para a preservação de valor começa aí: não em perguntar apenas quanto a empresa deve, mas quanto valor ainda pode gerar e como preservá-lo.

Rui de Carvalho Afonso, Director Geral - AFRJ Consulting

Logo Jornal EXPANSÃO Newsletter gratuita
Edição da Semana

Receba diariamente por email as principais notícias de Angola e do Mundo