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"A alma de um artista é sofrida, porque precisa ganhar a vida num bar ou restaurante"

António Paciência

Após apresentar durante vários anos a sua arte nas zonas nobres das cidades, António Paciência, entende que as periferias do País também precisam de ter acesso à arte. E assim nasceu o Kassemba Terra Preta, projecto que liga os bairros Cassequel e Calemba, em Luanda, através da arte e da cultura.

É difícil fazer arte em Angola?

Penso ser difícil em qualquer lugar do mundo. Mas em Angola, é ainda mais. A alma do artista é sempre uma alma sofrida. É uma alma que precisa ganhar a vida num bar ou restaurante para poder viver, que precisa de fazer apresentações com o seu violão, por exemplo. E, a esse respeito, não gosto de limitar esse sofrimento apenas à nossa perspectiva. Parece ser o dobro do difícil. Mas, quando ouvimos a história de outros artistas em outras partes do mundo, concluímos que há sempre um sofrimento terrível na alma do artista.

Concretize essa ideia.

Falo da alma artística. Preciso entender qual é o movimento da minha alma, quando associo a uma necessidade financeira, quando transformo um produto e o apresento às pessoas para o consumirem. Então, já não se trata de gosto, existe uma necessidade humana, e depois uma resposta racional ao que não existe. Logo, usarei esse meio de expressão artística para poder existir como artista e, acima de tudo, pagar as minhas contas.

Para ganhar a vida com a arte, pensei...

Vou expandir essa vertente da escrita. Já tenho os meus poemas, então vou recitá-los nos bares, na altura estava na cidade do Lubango. E vi que funcionava, por isso pensei, parece que os frequentadores gostam dos meus poemas porque me pagam para os recitar. Percebo que o artista é esse indivíduo com excesso de sensibilidade que escreve sobre contrastes, questões relacionadas com a injustiça e a desigualdade social. É assim que defino um artista.

É lucrativo? Existe essa necessidade de a arte ser ou não comercial?

Ser comercial parece ser um problema. Além disso, existe a necessidade de o artista possuir diversos tipos de conhecimento. Nós, artistas independentes, precisamos entender como gerir projectos, recursos humanos, contabilidade e como nos estruturar para sobreviver. Não estou a falar de viver, mas sim de sobreviver. Entenda que em Angola sobreviver significa ter um carro, ter casa própria, conseguir pagar as contas, conseguir dar uma educação de qualidade aos filhos. Isso é sobreviver em Angola.

Há quanto tempo sobrevive da arte?

Faz muito tempo. Já se passaram nove anos. Eu não tenho um emprego convencional. É algo que arruina o empreendedorismo. Costumo chamar isso de "banheira da bagunça". O artista precisa da banheira da bagunça. Quando tivemos a Covid-19, em 2020, eu estava num show de palavra falada, apresentei o espectáculo "Zungueiro Muzumbero", feito com um celular, uma coluna, a minha mochila e um microfone. Na altura já tinha feito 13 apresentações, o objectivo era fazer mais de 100 apresentações, com a intenção de não ficar sem casa e sem dinheiro.

Vamos olhar para as diversas actividades que realiza, teatro, poesia e produção de eventos. Se tivesse de escolher uma, qual seria?

É uma pergunta difícil. Mas, às vezes, quando fazemos algo, chegamos à conclusão que somos o que mais nos destaca. Eu distanciei-me do teatro por motivos financeiros. Imaginemos que existe um grupo, mas o dinheiro é pouco, o artista não terá como ganhar a vida com isso. O teatro é uma arte colectiva: É impossível que um indivíduo faça teatro sozinho, mesmo que tenha a intenção de fazer um monólogo, é preciso que alguém cuide da iluminação, que participe na sonoplastia, que dirija o espectáculo, ou seja, precisa-se de técnicos.

A sua essência é o teatro?

A base, eu não diria a essência, porque aí surge essa questão...Como artista, estou sempre disposto a experimentar e deixar as coisas fluírem, desde que a minha alma esteja em comunhão com o que estou a fazer. Mas a base acaba por ser o teatro, embora esteja ligado à literatura, à palavra falada, à poesia e outras artes que considero ramificações, pois, a minha única intenção é pegar e extrair o que está dentro de mim. Se observarmos todas essas experiências artísticas.

O que o define?

Eu considero-me um artista. Sendo um, tenho consciência do peso que essa palavra representa e estou consciente de todos os elementos que compõem essa experiência.

(Leia o artigo integral na edição 862 do Expansão, sexta-feira, dia 06 de Fevereiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

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