Pecuária cresce mas importações de carne ficam acima de 600 milhões USD/ano
Alguns segmentos da pecuária nacional começam a dar sinais de retoma, com crescimento nos efectivos jovens e maior capacidade na produção avícola, mas a produção interna continua muito abaixo do consumo.
A pecuária nacional continua incapaz de acompanhar as necessidades de consumo interno, apesar da dimensão do efectivo animal existente no País. Os números mostram que Angola mantém mi lhões de cabeças de gado distribuídas entre bovinos, caprinos, suínos, ovinos e aves, mas a evolução recente do sector revela sinais contraditórios, enquanto algumas categorias jovens cresceram, os principais efectivos destinados à produção imediata de carne sofreram reduções significativas.
O resultado é uma dependência crescente das importações de pro teína animal, no total, Angola em 2025 gastou mais de 600 milhões USD em importações de carne bo vina, suína e de frango, numa altu ra em que as reservas em divisas continuam pressionadas pela re dução das receitas petrolíferas. No segmento bovino, o efectivo total caiu de 3,52 milhões para 3,18 milhões de cabeças entre Julho de 2024 e Junho de 2025, uma redu ção de 9,7%.
A quebra foi ainda mais expressiva nas categorias funda mentais para reprodução e produ ção: o número de vacas caiu 15,1%, passando de 1,66 milhões para 1,41 milhões de cabeças, enquanto bois e touros diminuíram 14,3%. Ao mesmo tempo, os dados mos tram crescimento em algumas ca tegorias jovens, como novilhos (+6,2%), bezerros (+6,6%) e bezer ras (+11,5%), sinalizando tentativas de reposição do efectivo. Mas os au mentos não compensam a perda global do rebanho, num País onde o consumo anual de carne bovina ronda as 100 mil toneladas, segun do estimativas internacionais.
A insuficiência da produção in terna faz com que Angola continue dependente das importações de carne bovina congelada, especial mente proveniente do Brasil, Esta dos Unidos, Portugal e África do Sul, sendo que a carne importada domina boa parte dos supermer cados e da restauração nas grandes cidades, sobretudo em Luanda. Mas é no sector avícola que a vulnerabilidade alimentar do País se torna mais evidente.
Os dados oficiais indicam que Ango la importou cerca de 228 mil to neladas de frango em 2025, num valor superior a 312 milhões USD. Isto significa que o País gas ta aproximadamente 850 mil dó lares por dia apenas na compra de frango no estrangeiro. Ao mesmo tempo, os dados do efectivo avícola mostram relati va estabilidade interna. O núme ro total de aves caiu apenas 2,4%, enquanto os frangos de corte cresceram 5,3%, demonstrando que este continua a ser o seg mento com maior capacidade de resposta rápida ao mercado.
Os especialistas do sector esti mam que entre 70% e 80% do con sumo nacional de carne de frango continua dependente das impor tações. Angola continua excessiva mente dependente do exterior de vido aos elevados custos de produ ção. A ração continua cara porque depende de milho e soja importa dos, os custos energéticos são ele vados e a cadeia logística permane ce deficiente.
Produzir localmente continua, em muitos casos, a ser mais caro do que importar. Nos suínos, os números reve lam uma situação ainda mais preocupante. O efectivo caiu 34%, passando de 1,3 milhões para apenas 857 mil animais.
Os varrascos reduziram quase 48%, enquanto os leitões caíram cerca de 40%, indicadores que revelam uma forte deterioração da capacidade reprodutiva do sector. Nos caprinos, uma das bases da economia rural em muitas províncias do Sul, o efectivo caiu de 4,37 milhões para 3,74 milhões de cabeças (-14,3%).
Os bodes e cabritos diminuíram 27,5%, enquanto cabras e cabritas recuaram 9,1%. Trata-se de uma redução preocupante numa região frequentemente afectada pela seca, degradação das pastagens e insegurança alimentar.
Já os ovinos apresentaram maior estabilidade, com uma redução global de apenas 3,4%, embora algumas categorias específicas tenham crescido, como os carneiros e borregos (+21,6%).
Conclusão
O problema estrutural mantém-se praticamente inalterado há décadas. A maioria dos produtores continua a operar em regime extensivo, com baixa produtividade, reduzida assistência veterinária, dificuldades de acesso ao crédito, falta de água, fraca capacidade de conservação e quase inexistência de uma cadeia industrial integrada de transformação e distribuição. Além disso, o mercado formal continua fortemente dominado pela carne importada, muitas vezes mais barata do que a produção nacional, consequência directa dos custos logísticos internos, do elevado preço da energia e da baixa escala produtiva das explorações locais. O Executivo anunciou recentemente restrições graduais às licenças de importação de carne bovina, suína e aves, numa tentativa de estimular a produção interna. Mas vários especialistas alertam que limitar importações sem resolver primeiro os problemas estruturais do sector poderá apenas provocar escassez e subida de preços.











