Novas regras do resseguro para deixar mais dinheiro no País
Seguradoras cederam 173,2 mil milhões Kz ao resseguro em 2025, num mercado onde toda a capacidade resseguradora estava fora do País. Novo regime de co-seguro e a entrada da Mulemba Re pretendem aumentar a retenção nacional, embora os grandes riscos continuem dependentes dos operadores internacionais.
O mercado segurador angolano mais do que duplicou a produção em cinco anos, mas continua a entregar ao resseguro perto de 30% dos prémios que emite, uma factura que em 2025 atingiu 173,2 mil milhões Kz e que, na ausência até agora de capacidade resseguradora nacional relevante, terá sido praticamente toda canalizada para entidades não residentes.
A entrada em funcionamento da Mulemba Re e o novo regime especial de co-seguro criam agora condições para que uma parcela maior deste negócio fique no País, embora os grandes riscos continuem a precisar da capacidade financeira dos gigantes internacionais. Os números mostram bem a dimensão do desafio. Em 2020, as seguradoras produziram 223,8 mil milhões Kz em Prémios Brutos Emitidos (PBE) e cederam 78,2 mil milhões ao resseguro, equivalentes a 35% da produção.
Cinco anos depois, os prémios atingiram 578,4 mil milhões Kz e o resseguro 173,2 mil milhões. Em termos absolutos, a produção cresceu 158% e o resseguro cedido 121%. A boa notícia é que a dependência relativa diminuiu. A taxa de cedência, que rondava 35% em 2020 e 2021, caiu para 27,6% em 2022 e estabilizou posteriormente em torno dos 30%: 29,4% em 2023, 30,5% em 2024 e 29,9% no último exercício. Significa que, por cada 100 Kz de prémios produzidos em 2025, aproximadamente 70 Kz ficaram nas seguradoras e 30 Kz foram cedidos ao resseguro internacional. Em valores absolutos, dos 578,4 mil milhões Kz produzidos, as seguradoras conservaram 405,2 mil milhões e cederam 173,2 mil milhões.
Até 2025, Angola não tinha uma resseguradora nacional operacional com dimensão para absorver estes riscos e a actividade de resseguro aceite entre seguradoras locais era residual. A análise das contas de alguns dos principais operadores reforça, por isso, a hipótese de que a totalidade das cedências tenha sido colocada junto de resseguradores estrangeiros.
Petróleo pesa na factura
O mercado não cede todos os riscos na mesma proporção. O sector Vida transferiu apenas 1,6 mil milhões Kz para resseguro em 2025, menos 45% do que no ano anterior. Já Não Vida passou de 142,7 para 171,6 mil milhões Kz, concentrando praticamente toda a cedência. Dentro deste universo estão os grandes riscos petrolíferos, industriais, incêndio, aviação, transportes e infra-estruturas. São contratos que podem envolver activos avaliados em centenas de milhões ou milhares de milhões USD e que nenhuma seguradora angolana deve, por prudência, assumir integralmente. O ano de 2025 mostrou precisamente o outro lado desta equação.
Os custos com sinistros dispararam 90%, para 241,4 mil milhões Kz, e a taxa de sinistralidade global chegou aos 43%, com forte influência da petroquímica. Ou seja, mandar prémios para fora não é necessariamente perder dinheiro. O ressegurador também recebe o risco e paga quando há sinistro. A ARSEG registou 65,1 mil milhões Kz de indemnizações recuperadas junto dos resseguradores em 2025. É precisamente esta função que impede que um acidente de grandes dimensões numa plataforma petrolífera, aeronave ou unidade industrial coloque em causa a solvabilidade de uma seguradora nacional.











