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Grande Entrevista

"Todas as disciplinas da cultura são rentáveis desde que atreladas à qualidade"

Jomo Fortunato, jornalista, crítico, investigador e criador

Jomo Fortunato acredita que a produção artística pode ajudar o esforço do País na diversificação da sua economia. Defende a qualidade como factor de sucesso, mas não acredita num Estado demasiadamente presente na actividade cultural.

Pode a produção cultural ser um factor de diversificação da economia em Angola e ajudar a combater o desemprego?
Respondo afirmativamente. Temos de ser mais criativos e empreender um processo de gestão cultural com alguma cientificidade. Embora possa ser contraditório, a gestão cultural, tal como a arte, exige, igualmente, o recurso à criatividade. Há domínios que exigem formação adequada e a gestão cultural é um deles. Sabe-se que as mudanças dos novos padrões de consumo e de lazer da sociedade angolana, assim como os crescentes investimentos de empresas e instituições na cultura, têm contribuído para a ampliação e criação de um público e mercado para os produtos e eventos culturais que deve ser aproveitado pelo Estado. A dança, teatro e cinema, esta disciplina deveria estar mais próxima dos clássicos da literatura, através do mecenato e, sobretudo a música, têm crescido de forma inusitada, muitas vezes, ou quase sempre, sem o correspondente apoio infraestrutural, ao nível dos equipamentos, a ajuda da componente de ensino e a cobertura da regulamentação jurídica. Temos de valorizar a produção cultural e seus produtos, investindo na formação, solução que irá contribuir para a diminuição do espectro do desemprego.


Pode ou deve-se fazer uma diferenciação entre produção cultural e produção artística?
A produção cultural é um domínio mais vasto, porquanto a produção artística é muito mais restrita. Toda a produção é cultural, quando se reporta a tudo aquilo que o homem faz, em oposição à natureza, mas nem tudo o que é cultural é artístico. Derrubar uma árvore e construir uma canoa é uma intervenção cultural que pode não ser artística. Toda a arte é plástica. A arte é tudo aquilo que o sujeito acha que é... Agora, da nossa cosmovisão à consagração do produto artístico, a distância pode ser abismal. Aliás, o facto de pensarmos que produzimos "arte" não significa que a crítica, ou quem a recebe, a considere como tal.


Qual deve ser a responsabilidade do Estado na produção cultural? Como se equilibra com os agentes privados?
Embora alguns estudiosos prefiram o termo "desestatização" ao de privatização, enfatizando que o primeiro pretende a diminuição do peso do Estado na sustentação da cultura e o segundo uma remissão directa para o sector privado, a verdade é que a realidade cultural angolana está em condições de ser optimizada, com o contributo do sector privado da economia. A reutilização do termo privatização aplicado ao sector cultural, com inúmeros exemplos na Europa e no mundo, não significa um total afastamento do Estado na gestão, sustentabilidade e valorização dos bens culturais. Existem múltiplas formas de relacionamento entre o Estado e o sector privado, tendo a cultura, incluindo a sua dimensão patrimonial, como objecto de gestão. Claro que o Estado tem de assegurar a construção de equipamentos culturais, mas defendo a privatização do sector cultural, sobretudo no domínio das artes, remetendo para o Estado a parte da conservação e restauração do Património.

(Leia o artigo na integra na edição 527 do Expansão, de sexta-feira 7 de Junho de 2019, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)


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