"Do ponto de vista empresarial, nós nunca podemos estagnar"
O empresário Rui Van-Dunem está à frente da TCG há 26 anos, uma escolha que fez em 1999, depois de uma passagem com sucesso pela música quando era apenas o "Ruca". Um negócio de família que assumiu por influência do seu pai, e que hoje mantém com a mãe e os irmãos.
A sua entrada na vida pública começa pela música, marcou uma época com sucessos como Manhã de Domingo, por exemplo. Como é que depois o artista se torna empresário?
Em 1989 fui estudar para Portugal por pressão do meu pai. Quando lá cheguei, ia estudar para o Instituto Superior Técnico, onde acabei por me formar em Engenharia Mecânica, mas não havia vagas. Estive dois anos numa universidade privada, para não perder o ritmo como dizia o meu pai, e foi nessa altura que comecei a fazer música, um pouco por acidente...
Explique-nos o que aconteceu.
Sempre fui uma pessoa ligada às electrónicas, às tecnologias, e como tinha um equipamento comecei a fazer música. A certa altura, foi-me perguntado por que é que eu não gravava um disco. De facto, vou ser muito sincero, não foi minha pretensão fazer algo de profissional nesta área. Como tinha algum tempo livre, fiz de facto os meus dois primeiros álbuns. Um em 89 mesmo, que foi editado em 90, e o outro que depois saiu em 1992.
Que acabaram por ter muito sucesso.
Não estava à espera que fosse tão bem recebido. Quando vim a Luanda num dos interregnos das aulas, encontro um ambiente e uma realidade em que eu era quase uma estrela. Eu sou uma pessoa introvertida, não sou muito expansivo e fez-me alguma confusão, efectivamente. E por essa razão acabei por estender o meu processo na música até cerca de 1995, ainda gravei mais dois discos, aí já com muito mais dificuldade por causa do processo da universidade, já estava no Técnico. Quando terminei a minha licenciatura, eu tive que escolher o que é que faria, se continuava. Pensei, vou escolher o meu caminho empresarial, vou fazer, tive essa oportunidade na altura, vou parar com a música. E assim foi.
Não pensou em manter uma carreira em paralelo?
Por uma questão de respeito para com a profissão, porque a música é uma profissão como outra qualquer, tem rentabilidade, deve ser feita, na minha opinião, com amor, mas também numa perspectiva de quem a faz ter o retorno para viver. E, por tanto, por respeito aos profissionais de música, disse não.
Mas acabou definitivamente?
Hoje continua como um hobby. Tenho muitas músicas feitas, tenho um álbum pronto, preparado, que nunca viu a luz do dia. Hoje sinto muita nostalgia naquilo que são as músicas que eu tive o privilégio de conseguir conceber e vejo as pessoas ouvirem-nas com muita saudade daquele tempo. O Ruca não morreu. Está só guardado.
Como é que avançou para a vida empresarial, para ganhar dinheiro?
Bem, eu na música também ganhei dinheiro. Quando terminei a minha licenciatura, vim de imediato para Angola, com a perspectiva de efectivamente pegar na empresa da família, um discurso que meu pai tinha formatado durante a minha licenciatura. Eu vou ser muito sincero, naquela altura não dava muita importância ao que ele dizia. O meu objectivo era de facto... terminar aquele monstro, que era a universidade onde eu estava, e depois disso, então, ver o que é que acontecia. Até tinha algum receio do que ele dizia, porque eu era estudante, não fazia a mínima ideia de como se geria uma empresa.
Como se dá a chegada a Luanda?
Quando retorno, tive logo à chegada duas grandes propostas de emprego, duas empresas grandes na área da construção. Naquela altura não havia muitos engenheiros nacionais, como temos hoje. Eram escassos, eram mais os engenheiros estrangeiros que tinham um custo muito elevado para as empresas. O engenheiro nacional tinha a vantagem de ter a sua casa, uma vida semi-organizada, já estava no País, e o foco das empresas era dar a essas pessoas boas condições salariais. De facto, tive duas belas propostas de salário. Curiosamente, os dois salários eram iguais, deveria ser um standard naquela altura no mercado.
Uma decisão difícil para quem ia iniciar a vida profissional.
Eu senti que tinha o dever moral para com os meus pais, porque eu não fui de bolsa, tive essa oportunidade, sempre fui um bom aluno. Mas o meu pai fez questão que assim não fosse, que fosse por conta própria. E os meus pais suportaram os meus estudos. Rejeitei com alguma dificuldade essas duas propostas, porque eram mesmo muito boas, e peguei na empresa que dirijo até hoje, com uma remuneração salarial três vezes e meia inferior. É por isso que eu digo que o dinheiro não é tudo na vida.
Não ficou com uma sensação de frustração?
Não me arrependo de nada. Se calhar hoje, se tivesse feito o outro caminho, estaria em algum conselho de administração, ou estaria a dirigir, se calhar, uma dessas empresas. Não faço a mínima ideia. Ninguém sabe. Mas, efectivamente, o desafio que foi, todos estes 26 anos na gestão empresarial da TCG, tudo o que tivemos que fazer, a certa altura tivemos de nos reinventar, as engenharias financeiras para sobreviver, a luta, enfim, com o nosso próprio mercado, que é um mercado muito particular, muito próprio. Também as lutas contrárias contra nós, porque, infelizmente, em Angola, a livre concorrência nunca foi muito bem aceite. Claro que valeu a pena e fico orgulhoso com o nosso trajecto.
Na altura as coisas eram mais difíceis.
Hoje temos uma sociedade totalmente diferente. Quando cheguei, eu encontrei uma empresa pequena que tinha cerca de 10/12 colaboradores. Nós hoje temos mais de 100. Nunca digo o número exacto porque nós temos muitas pessoas que não são efectivas. E as áreas de negócio também não são as mesmas. Eu encontrei a nossa empresa virada essencialmente para o transporte de combustível. Era esse o nosso métier. Nós tínhamos, na altura, dois ou três camiões pequeninos, fazíamos transporte na cidade e isso suportava a pequena estrutura existente.










