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Grande Entrevista

"Quando temos a população a crescer, mas a produção a reduzir, isto é terrível"

HEITOR DE CARVALHO | DIRECTOR DO CINVESTEC

O economista aponta à simplificação das regras para a melhoria do ambiente de negócios e o controlo do crescimento populacional como caminhos para melhorar a economia do País. Defende que o governo deve gastar menos com o Estado, até para contrapor a queda das receitas vindas do petróleo, devido ao declínio da produção, e apostar numa diversificação económica suportada pela iniciativa privada.

O Centro de Investigação Económica da Universidade Lusíada (CINVESTEC) publicou o relatório económico referente ao 3.º trimestre de 2025. Olhando para os números e estando já no segundo mês do ano, que perspectiva traça para a economia nacional?

Não se pode dizer que esteja boa. Se nós analisarmos o percurso desde 2017 até hoje, e é sempre bom fazer os pontos da situação dos ciclos políticos, notamos que há uma queda enorme do produto per capita, na ordem dos 17%, de acordo com os dados do INE. Isto deve- -se fundamentalmente à redução da produção petrolífera. Sabemos que a produção petrolífera atingiu, em 2015, depois em 2016, 1 milhão e 700 mil barris, e em 2017 já tinha baixado um bocadinho, mas mesmo assim, comparando com 2017, há uma queda enorme da produção petrolífera. E essa queda da produção petrolífera naturalmente influencia negativamente o produto per capita.

Tudo gira em torno do petróleo?

Há muita gente que fala em economia real, e depois falam da agricultura e das pescas, isso também é a economia real, mas também é economia real os serviços bancários, os serviços de educação, os serviços de reparação de automóveis...Tudo isto é a economia real. A economia real contrapõe-se à economia financeira. A economia financeira é a que não acrescenta valor. A economia financeira reparte valor, ou seja, eu empresto para alguém fazer e cobro um juro pelo meu empréstimo. Dos rendimentos que alguém vai ter ao fazer alguma coisa, uma parte vai ser dada por ter emprestado o dinheiro. Isto é que é a parte financeira, não cria valor. A parte real da economia, tudo aquilo que alguém fizer com um empréstimo ou sem empréstimo, isso sim cria valor. A criação de valor é o rendimento. O rendimento são salários, juros e lucros, basicamente.

É sempre nesta lógica?

Claro que muitas vezes não é possível destrinçar desta forma. Por exemplo, o rendimento de um roboteiro. É trabalho ou capital? Porque ele, na verdade, tem um negócio, mas é o único trabalhador daquele negócio.

Como classificam estes casos?

Chamam-se normalmente rendimentos mistos. Infelizmente, nas estatísticas do INE, só temos salários e rendimentos mistos. Não se consegue perceber, efectivamente, qual é o peso dos salários relativamente aos lucros, porque era isto que nos interessava saber.

Que participação dos salários há no rendimento nacional, no Produto Interno Bruto, considerando as empresas formais?

Porque nos rendimentos mistos está toda a informalidade e nós não sabemos quanto é que é o rendimento misto de informalidade ou rendimento misto de uma empresa formal. Acho que não é assim tão difícil conhecerem-se os lucros, pelo menos os que são declarados na AGT.

A ausência desses dados não tem a ver com o tipo de economia do País, assente numa informalidade significativa?

Sim, mas também temos economia formal. E se temos economia formal, devíamos conhecer os lucros dessa economia formal. Porque se o INE é capaz de distinguir, dentro dos rendimentos dos salários, também tem, pela mesma razão, a obrigação de distinguir nos rendimentos o que são os lucros, para aí sim compararmos o peso dos salários nas empresas de economia formal. Claro que nunca saberemos exactamente qual é o peso total do trabalho, porque o trabalho engloba simultaneamente lucro e salário. E isso acontece em todos os lugares do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, há um grande peso dos rendimentos mistos. O nosso problema é não haver um mínimo de informação distinta entre o que são salários e o que são lucros.

A metodologia usada pelo INE não está correcta?

Penso que é falta de meios do INE. Não é nem vontade, nem gosto. É não ter meios. O INE tem meios muito restritos e vai fazendo o que pode...

Leia o artigo integral na edição 863 do Expansão, sexta-feira, dia 13 de Fevereiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

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