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Opinião

Angola diante de novas descobertas petrolíferas | A ilusão da dependência

CONVIDADO

A história económica de países como Venezuela e Irão oferece advertências claras: riqueza de recursos não é sinónimo de prosperidade duradoura. Sem uma diversificação efectiva e reformas estruturais profundas, Angola corre o risco de repetir velhos padrões de vulnerabilidade e dependência. É tempo de olhar além do petróleo, usando os recursos energéticos como parte de uma estratégia integrada para construir uma economia mais resiliente, diversificada e justa para todos os angolanos.

Em 2025-2026, notícias sobre o renascimento do sector petrolífero angolano surgem com frequência, suscitando optimismo entre investidores e gestores públicos. Embora expectativas de atrair mais compradores e investimentos indiquem um ambiente atractivo para o capital estrangeiro, esta situação exige reflexão crítica dos decisores políticos e gestores económicos. É compreensível que a possibilidade de "novas riquezas" levante entusiasmo. Porém, confiar excessivamente no petróleo como motor de desenvolvimento económico pode conduzir o país a erros de política que muitos outros Estados abundantes em recursos naturais já cometeram. A experiência de Venezuela e Irão ilustra de forma clara os riscos de uma economia profundamente dependente das exportações petrolíferas.

A armadilha de um modelo dependente

A Venezuela, dona de uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, tem vivido um ciclo prolongado de crise económica e política. O país transformou se num petroestado, com forte dependência dos rendimentos do crude, instituições fracas e concentração de poder político, o que resultou numa economia pouco diversificada e vulnerável a choques externos. Conselho de Relações Exteriores O caso iraniano, por sua vez, demonstra que grandes reservas petrolíferas não garantem crescimento sustentável quando questões geopolíticas e sanções limitam o acesso aos mercados internacionais, tecnologia e financiamento externo. Dependência excessiva do petróleo fragiliza a economia e reduz a capacidade de resposta a pressões externas - um cenário que Angola não pode ignorar.

Os limites da nova prosperidade petrolífera

Apesar de Angola continuar exportar petróleo e gerar areceitas milionárias, os dados económicos recentes apontam para um quadro mais complexo. A produção petrolífera em 2025 atingiu níveis inferiores aos de uma década atrás, registando queda contínua que reflecte o envelhecimento dos campos e falta de grande investimento em capacidade de produção.

Ao mesmo tempo, o sector petrolífero ainda representa a grande maioria das exportações e uma parte significativa do Produto Interno Bruto, apesar de haver esforços no sentido de diversificar a economia e reforçar o sector não petrolífero, que tem vindo a crescer em termos de participação no PIB. Esse quadro indica que Angola continua vulnerável a choques externos - como alterações nos preços dos hidrocarbonetos - e reforça a urgência de políticas que tornem a economia mais resiliente, em vez de simplesmente apostar na exploração petrolífera como solução única.

Lições para uma estratégia económica robusta

A dependência do petróleo pode trazer receitas imediatas, mas constitui sempre um risco estrutural se não vier acompanhada de uma estratégia de diversificação económica robusta. Angola enfrenta hoje o desafio de converter recursos naturais em desenvolvimento sustentável, o que exige:

01. Investimento em sectores não petrolíferos como agricultura, indústria de transformação e serviços, potencialmente alavancados pelas receitas do petróleo, mas sem ficar aprisionados a ele; 02. Reformas institucionais e de ambiente de negócios que incentivem o Empreendedorismo, protejam investimentos e facilitem o acesso ao crédito para pequenas e médias empresas;

03. Fomento do capital humano através de educação técnica, científica e alinhada às exigências de uma economia diversificada;

04. Gestão prudente do orçamento petrolífero, com fundos soberanos e mecanismos de estabilização que evitem a volatilidade fiscal. Novas descobertas ou expectativas de investimentos no sector petrolífero podem reforçar Angola como actor relevante no palco energético internacional. Contudo, é crucial que os decisores políticos e gestores não confundam esse potencial com uma rota automática para desenvolvimento sustentável.

A história económica de países como Venezuela e Irão oferece advertências claras: riqueza de recursos não é sinónimo de prosperidade duradoura. Sem uma diversificação efectiva e reformas estruturais profundas, Angola corre o risco de repetir velhos padrões de vulnerabilidade e dependência. É tempo de olhar além do petróleo, usando os recursos energéticos como parte de uma estratégia integrada para construir uma economia mais resiliente, diversificada e justa para todos os angolanos.

*Osvaldo Agostinho de Almeida, Físico nuclear

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