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Opinião

Cheias em Benguela, falhas energéticas e a urgência de uma resposta pública responsável

CONVIDADO

A questão não é apenas restau rar o fornecimento de energia no curto prazo. É garantir que, no futuro, eventos semelhantes não tenham os mesmos impactos devastadores. Isso exige visão, compromisso e, acima de tudo, responsabilização.

As recentes cheias que assolaram a província de Benguela no dia 12 de Abril não devem ser analisadas apenas como um evento climático extremo. Elas representam, sobretudo, um teste à resiliência das infraestruturas e à capacidade institucional de resposta do Estado. Mais preocupante ainda é o facto de estes eventos não configurarem episódios isolados, mas antes a manifestação de um padrão recorrente de vulnerabilidade estrutural.

As cheias em Benguela e as chuvas intensas na Catumbela e no Lobito têm-se repetido ao longo dos anos, frequentemente com consequências trágicas, incluindo perdas de vidas humanas.

Perante esta recorrência, torna-se analiticamente in sustentável continuar a enquadrar estes episódios como meras fatalidades naturais. Quando os riscos são conhecidos, previsíveis e territorialmente identificáveis, a persistência de impactos humanos severos evidencia falhas cumulativas ao nível do planeamento urbano, da gestão de infraestruturas e dos mecanismos institucionais de prevenção e resposta. Ignorar esta dimensão é, na prática, normalizar a recorrência do dano e diluir a responsabilidade do Estado na proteção dos cidadãos.

Para além dos danos visíveis como a destruição de habitações, estradas e outras infraestruturas, há uma crise menos visível, mas igualmente grave: a crise energética desencadeada pelas interrupções prolongadas no fornecimento de eletricidade.

Num contexto em que o acesso à energia constitui um elemento central para o funcionamento das economias modernas, os cortes constantes de eletricidade não são apenas um problema temporário. Eles têm custos reais, diretos e mensuráveis para as famílias e para a atividade económica no seu todo. Em Benguela, esses custos já se fazem sentir de forma significativa.

A interrupção do fornecimento elétrico compromete, desde logo, a conservação de alimentos. Famílias que dependem de frigoríficos e congeladores para armazenar produtos vêem-se obrigadas a descartar bens perecíveis, muitas vezes adquiridos com grande esforço financeiro. Este fenómeno agrava a insegurança alimentar e reduz o rendimento disponível, sobretudo entre os agregados mais vulneráveis. Paralelamente, a instabilidade no fornecimento energético obriga ao recurso a alternativas mais caras, como geradores movidos a combustível.

Este recurso não só aumenta o custo efectivo da energia, como também contribui para a pressão sobre os preços da gasolina, principalmente no mercado informal, que, por sinal, é expressivo em Benguela. O resultado é um efeito em cadeia: energia mais cara implica transporte mais caro, o que, por sua vez, se traduz em aumento generalizado dos preços de bens e serviços. Estamos, portanto, perante um fenómeno que ultrapassa a dimensão técnica da falha energética e se inscreve no domínio da justiça económica e social. Os cortes de energia funcionam, na prática, como uma transferência silenciosa de custos do sistema para os consumidores...

*Querubim Lucamba, Especialista em Economia da Energia e Investigador

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