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Economia

Kwanza estável face ao dólar esconde pressões cambiais e distorções no euro

CÂMBIO

Apesar da forte procura por divisas, o kwanza mantém-se artificialmente estável face ao dólar, revelando intervenção administrativa. Já na relação com o euro, as oscilações expõem um mercado cambial desalinhado das referências internacionais.

A estabilidade cambial do kwanza face ao dólar está cada vez menos ligada às dinâmicas de mercado e mais a uma lógica de gestão administrativa, num contexto em que a procura de divisas continua estruturalmente superior à oferta. Os dados analisados mostram que desde o início do ano a taxa USD/Kz oscilou num intervalo extremamente estreito - entre cerca de 911,97 e 912,29 kwanzas por dólar -, o que representa uma variação inferior a 0,40 kz, praticamente irrelevante do ponto de vista económico. Esta rigidez contrasta com os fundamentos do mercado cambial angolano. Num País dependente das receitas petrolíferas, com entradas de divisas condicionadas pela volatilidade do preço do crude e por uma base exportadora pouco diversificada, seria expectável uma maior pressão depreciativa sobre a moeda nacional.

A manutenção de uma taxa quase fixa sugere, assim, uma intervenção activa do regulador, através da gestão da liquidez em moeda estrangeira, controlo das operações e, eventualmente, mecanismos informais de racionamento.

Se na relação com o dólar o comportamento é de quase paridade fixa, já na taxa EUR/Kz a realidade é distinta. Os dados mostram oscilações significativas, com o euro a variar entre cerca de 1.046 e 1.105 kwanzas. Mais relevante ainda, esta evolução não acompanha de forma consistente a dinâmica internacional da taxa EUR/USD, o que levanta questões sobre o mecanismo de formação de preços no mercado cambial doméstico.

Em teoria, num sistema em que o kwanza está "ancorado" ao dólar, a taxa com o euro deveria reflectir essencialmente as variações do par EUR/USD nos mercados internacionais. Ou seja, se o euro se aprecia face ao dólar, deveria automaticamente traduzir-se numa valorização proporcional face ao kwanza - e vice-versa.

No entanto, os dados sugerem desvios a esta lógica, indicando que o mercado cambial angolano não está a operar com total arbitragem entre moedas. Há várias explicações possíveis para este fenómeno.

A primeira prende-se com a própria seg mentação do mercado cambial. A disponibilidade de euros pode não acompanhar a de dólares, levando a ajustamentos diferenciados de preços consoante a moeda.

Num contexto de escassez selectiva, o euro pode incorporar um prémio adicional, dissociando-se da paridade internacional.

Uma segunda explicação está relacionada com a formação administrativa das taxas. Se o regulador define ou influencia diretamente a taxa USD/Kz, mas permite alguma flexibilidade - ou menor controlo - na taxa com o euro, cria-se um espaço para desalinhamentos. Neste cenário, o euro acaba por funcionar como uma "válvula de esca pe" de pressões cambiais que não se reflectem no dólar.

Por fim, não se pode excluir a influência de factores operacionais e de mercado, como a estrutura das importações, a moeda de facturação dos contratos ou a actuação dos bancos comerciais. Num sistema com restrições de acesso a divisas, pequenas alterações na procura relativa de euros podem gerar movimentos mais amplos na taxa.

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