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Opinião

Várias juventudes

EDITORIAL

Entre o jovem que regressa de Londres com um mestrado e emprego garantido na empresa do pai e aquele que abandonou a escola aos 14 anos para vender na rua existe uma distância social maior do que a que separa Luanda de Londres. Ambos podem ter 25 anos mas é a única coisa que têm em comum. Por isso, quando ouvimos que "os jovens" são empreendedores, estão desmotivados ou não querem trabalhar, convém perguntar: quais jovens?

Há uma expressão que os políticos angolanos adoram: "a nossa juventude". É o futuro da Nação, a esperança do País e, se o discurso for comprido, até é o motor da diversificação económica. Só que existe um problema: essa juventude, no singular, não existe.

Há, para começar, os jovens de boas famílias que estudaram no estrangeiro. Muitos ficam fora e outros regressam com bons cursos, línguas e contactos. Conseguem bons empregos, entram nas empresas certas e começam a construir património. Mas muitos não vêem Angola como o lugar onde querem envelhecer. É onde se trabalha e ganha dinheiro. A vida será depois em Lisboa, Londres, Dubai ou onde a conta bancária permitir. Uma espécie de patriotismo financeiro invertido: trabalha-se cá, acumula-se cá e sonha-se lá fora.

Depois há uma segunda juventude, menos visível nas conferências sobre empreendedorismo. São maioritariamente jovens formados em Angola, muitos filhos das classes médias e baixas, que estudaram e acumularam certificados até descobrirem que um diploma ajuda, mas não garante emprego. Querem salário decente, casa, família e, luxo dos luxos, alguma previsibilidade sobre o mês seguinte.

Começam optimistas. Depois conhecem os salários, os preços, as promoções que nunca chegam e a extraordinária capacidade nacional de colocar a pessoa certa no lugar errado. E começam a olhar para o aeroporto. Só que estes não têm casa em Portugal, contas recheadas no estrangeiro ou pais capazes de financiar o recomeço. Quando partem, juntam dinheiro e aceitam começar vários degraus abaixo. Não emigram porque deixaram de gostar de Angola. Cansaram- -se de esperar que Angola gostasse deles.

Depois existe uma Angola jovem provavelmente muito maior: a dos que nunca chegaram à universidade e encontraram a economia informal porque a economia formal nunca os encontrou. Vendemos a informalidade como um problema - e é -, mas esquecemos a capacidade de trabalho que existe nela. Jovens que acordam de madrugada, vendem na rua, lavam carros, fazem entregas, consertam telefones ou conduzem kupapatas. Não têm contrato, férias ou segurança social. Muitas vezes nem sabem quanto vão ganhar nesse dia. Mas trabalham! Finalmente, há os outros. Os que escolheram a marginalidade ou foram empurrados para ela. Aqui não vale a pena romantizar.

A pobreza explica muita coisa, mas não tudo. Há quem roube para comer e quem tenha descoberto que roubar pode render mais do que trabalhar. Existe delinquência por sobrevivência, mas a maioria é por opção, ambiente ou oportunidade. Entre o jovem que regressa de Londres com um mestrado e emprego garantido na empresa do pai e aquele que abandonou a escola aos 14 anos para vender na rua existe uma distância social maior do que a que separa Luanda de Londres. Ambos podem ter 25 anos mas é a única coisa que têm em comum. Por isso, quando ouvimos que "os jovens" são empreendedores, estão desmotivados ou não querem trabalhar, convém perguntar: quais jovens?

Se os que têm alternativas e fazem dinheiro para sair, os qualificados sem privilégios que sonham com o aeroporto, os que teimam em ficar no seu País, os que trabalham e sobrevivem fora da economia formal, ou os que viram no crime um negócio mais rentável.

A questão também é outra: que País estamos a oferecer a estas juventudes? E nenhum discurso sobre "os jovens, o futuro da Nação" resolve uma contradição tão simples: um País que não consegue dar futuro aos seus jovens arrisca-se a ficar sem os melhores, a desperdiçar os restantes e a pagar, mais tarde, a factura de ambos.

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